O idoso com um violão aborda Milton Hatoum na entrada do auditório. Falando rápido, ele quer mostrar sua homenagem ao "professor", parece que é uma música, não dá para entender muito bem. Alguém pergunta a Hatoum se ele topa ouvir a tal homenagem. Cordialmente, o escritor diz que sim. "Homenagens são sempre boas", comenta.

Com alguém segurando o microfone, o tal idoso, empunhando o violão, começa a cantar sua homenagem: "Que bom que você veio. Que bom que você veio. Que bom que você veio, curtir esse passeio". Alguns leitores dão risadas, acompanham os compassos com palmas. E o idoso continua a entoar os versos de "que bom que você veio, que bom que você veio" até que alguém, após vencer a resistência do menestrel, consegue tirá-lo da frente do palco.

Convocado a subir ao palco da 1ª Festa Literária de Maringá (FLIM), na última sexta-feira, Milton Hatoum encara os mais de 400 leitores que estão ali sentados só para ouvi-lo. E, gente fina à beça, agradece a presença de todo mundo: "Que bom que vocês vieram", comentou o escritor, arrancando risos do público.

Bem-humorado, o romancista discorreu sobre o processo de escrita de seus textos, principalmente sobre "Dois Irmãos", seu romance mais lido e conhecido. "A literatura não é feita para exaltar o bem-viver", decretou Hatoum, vez ou outra citando Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Dostoiévski e outros autores canônicos.

Divulgação/Prefeitura Municipal de Maringá

O escritor Milton Hatoum, em palestra na Flim: "A literatura não é feita para exaltar o bem-viver"

O farto arcabouço cultural de Hatoum – um dos maiores romancistas vivos do País – seu humor sempre disposto e sua capacidade de liricizar trechos inteiros de uma resposta sobre literatura, fizeram daquele encontro uma noite antológica. Não há uma alma que saiu vazia de literatura após ouvir os relatos de Milton Hatoum.

Organização

A sensação depois de uma semana tão bacana, que começou na terça-feira e foi até sábado, é de ressaca literária. Finalmente, Maringá conseguiu organizar sua festa literária, e a coisa saiu ainda melhor que o esperado. Foi notável a parceria da secretária de Cultura Olga Agulhon e Laide Sousa, responsável pela organização de edições memoráveis da Semana Literária do Sesc. Na Flim, todo mundo dava o sangue. Não era raro ver a própria secretária de Cultura metendo a mão na massa, carregando cadeiras de um lado para o outro do pavilhão de livros.

Quanto às obras disponíveis, garimpando bem, dava para esbarrar em livros novinhos de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, por exemplo, por apenas R$ 10. Quem não foi, perdeu.

'Maluquinho'

Outro destaque foi a participação de Ziraldo. O pai do "Menino Maluquinho" reuniu cerca de mil leitores. Ao possibilitar o encontro de pequenos leitores com um ídolo literário, a Flim vai criando, aos poucos, o gosto pela participação nesse tipo de evento, e, cá entre nós, isso é louvável.

Não há dúvidas: estamos vivendo um momento de revolução e amadurecimento cultural na cidade. E quem sai ganhando, no final das contas, somos todos nós.

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O cartunista Ziraldo: palestra para mais de mil crianças na Flim