O romance "Desesterro" (Editora Record, 304 páginas, R$ 39,90) não é apenas uma história que brinca com o leitor de não deixar claro o que é sonho e o que é realidade. Entre misturas de pesadelos, misticismo, morte e mulheres marcantes, tudo é real e tudo é sonho em Vila Marta e Vilaboinha – os palcos da narrativa. O livro é também o "sonho das páginas próprias", como define a própria autora, Sheyla Smanioto.

Cheio de originalidade e lirismo, o primeiro romance publicado da escritora de Diadema é um soco no estômago, no melhor dos sentidos. Às vezes sombrio, às vezes ecoando esperança em cada frase, "Desesterro" foi digno do Prêmio Sesc de Literatura em 2015. "Já escrevi outros, mas esse é o primeiro que eu escrevi querendo encontrar leitores, ser lida, ecoar além dos meus cadernos", conta Sheyla.

A ideia surgiu quando ela percebeu que a vida que conhecia não constava na literatura ou não era abordada da perspectiva da periferia e das mulheres. As personagens femininas notáveis, enterradas e desenterradas entre violência e fome, realmente lembram todas as lutas das mulheres de hoje: vitórias, tragédias, mas obstinação e coragem nas batalhas.

A literatura, para Sheyla, é uma forma de dar importância aos problemas. "Quando algo me incomoda, eu quero que outras pessoas se incomodem também, por isso escrevo." Ela acredita na arte de escrever para trazer o passado de volta, principalmente no Brasil. "Em um País que se nega tanto o luto, é a maneira que encontrei de honrar os mortos. Afinal, quando a gente diz que uma mulher assassinada pelo marido deve ter provocado, estamos condenando essa mulher e essa história ao esquecimento."

A própria autora é uma personagem marcante nas linhas da vida. "Esse livro é uma espécie de oferenda que eu precisei fazer para todas as pessoas que não estão mais vivas, mas que tornaram possível que eu, mulher, vinda de Diadema e de outras periferias de São Paulo, primeira na minha família a me formar, escrevesse um livro", revela.

Divulgação
Sheyla Smanioto: autora escreve sobre problemas que a incomodam

A questão das mulheres na sociedade é urgente e a violência retratada por ela no livro é o que toda mulher vive, mesmo que nas pequenas coisas. Por isso, a autora viu a existência de "Desesterro" como uma necessidade. "Os homens não sabem o que é ser mulher, o que é habitar um corpo de mulher, um corpo emprestado de mulher, eles não sabem o que é se sentir vivendo de favor nesse mundo. Mas eles precisam saber, e nós precisamos viver a vida de outras mulheres, aprender com elas."

E não é só isso. A autora conseguiu equilíbrio suficiente para retratar a migração e a miséria sem banalizar ou cair no comum. Talvez, pelo próprio sentimento dela em relação ao assunto. Sheyla conta que sempre teve medo da fome e que precisava mostrar isso. Mas as dificuldades ultrapassam o modo de escrever, questões técnicas e estudos necessários para fazer isso tão bem, mesmo sem se encaixar em qualquer padrão.

"Minha maior dificuldade foi sobreviver a essas histórias todas, porque chegou num ponto em que o 'Desesterro' era uma espécie de vampiro que tanto me queria morta quanto viva. Foi como mexer nas feridas de um corpo desconhecido que pode ser o da minha família ou o da nossa, só sei dizer que é antigo", relata.

Novo romance
Agora, a autora que já trabalhou na área audiovisual e com teatro, ocupa-se com seu segundo romance: "O Mal Entendido", no qual traz uma perspectiva diferente da ditadura militar no Brasil, vista da periferia. "Como no 'Desesterro', que apresenta uma nova visão para o episódio histórico das migrações, 'O Mal Entendido' trará uma visão arquetípica, poética e também uma história forte, envolvente", promete Sheyla.

ISTO É SHEYLA SMANIOTO
"Mãe é tudo que eu nunca tinha. Mãe nasce um filho e morre, tem mãe que nem tanto, fica viva, e depois morre todo dia. Os dias são as coisas que se enfileiram sem a gente nem ver, levando embora tudo que não fica. Embora é lugar distante, dentro dos olhos, e olhos são buracos para o mundo nascer na gente. A mãe lhe abraça do mundo, do que você não conhece, e faz o dia todo tudo que podia, pra só depois ir dormir o que não consegue." (Trecho de "Desesterro", de Sheyla Smanioto).