José Eduardo Agualusa não ficou chateado quando soube que havia perdido, neste ano, o Man Booker International - um dos prêmios literários mais importantes que há - para uma escritora sul-coreana. "Fiquei muito comovido ao assistir à premiação de Han Kang. Chorei vendo chorar a jovem tradutora dela. Eventos literários não são combates de boxe. São o oposto", comenta o autor, por e-mail, em entrevista concedida ao Diário.

Uma das grandes vozes da literatura angolana, o versátil Agualusa já publicou crônicas, poemas, contos, obras voltadas para o público infanto-juvenil e romances. Desde que estreou com "A Conjura" (1989), vem lançando praticamente um livro por ano. Com quase 30 obras, muitas delas sendo analisadas em Mestrados e Doutorados mundo afora, o autor de "O Vendedor de Passados" (2004) e "Teoria Geral do Esquecimento" (2014) desembarca pela segunda vez na cidade, no dia 14 deste mês, para conversar, com entrada grátis, sobre o tema "Semelhanças e diferenças entre a literatura brasileira e a africana".

Um dos principais nomes da Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), Agualusa comenta a atual situação política do Brasil, revela o quão essencial é ler poesia para escrever romances e comenta a mistura que faz, em sua escrita, da prosa com elementos poéticos: "Preocupo-me muito com o ritmo e a melodia interna das frases. Gostaria que os meus romances fossem canções". Leia abaixo a entrevista na íntegra.

P.—Essa será sua segunda palestra em Maringá. Na primeira vinda, em 2014, participou de um evento na UEM. O que achou dos seus leitores maringaenses?

R.—Não fiquei tempo suficiente para conhecer. Espero ter mais tempo desta vez. É sempre uma alegria conversar com leitores. Da última vez falei para dois mil professores de literatura. Foi uma experiência emocionante. Era um público muito especial.

P.—Formou-se em Agronomia e Silvicultura. Por que virou escritor?

R.—A paixão pela escrita – tão simples quanto isso. Tive vários colegas em Agronomia e em Silvicultura que também se tornaram escritores. Não existe um único caminho para alguém se tornar escritor. O amor pelos livros é uma das poucas coisas em comum.

P.—Desde 1989, vem lançando praticamente uma obra por ano. Há alguma desvantagem em escrever tão rápido?

R.—Não escrevo rápido. Escrevo, sim, com alguma disciplina. Além disso não escrevo um romance por ano. Costumo alternar com livros de contos ou de crônicas. Cada livro tem o seu tempo de criação, não dá para apressar. Alguns levam anos. Outros eu escrevi em quatro meses.

P.—Em seus romances, chega a mesclar prosa com alguns elementos poéticos. Esse hibridismo é algo que busca conscientemente?

R.—Não. Sou um grande leitor de poesia. Leio poesia para escrever ficção. Ou seja, enquanto romancista eu alimento-me de poesia. É natural que a poesia surja, muitas vezes, subvertendo a ficção. Agrada-me isso. A intromissão da poesia acrescenta certa estranheza. Um perfume. Além disso preocupo-me muito com o ritmo e a melodia interna das frases. Gostaria que os meus romances fossem canções.

P.—Ficou chateado com o resultado do Man Booker International deste ano?

R.—Não, claro que não. Fiquei muito comovido ao assistir à premiação de Han Kang. Chorei vendo chorar a jovem tradutora dela. Li o romance de Han Kang, "Vegetariana", e gostei muito. É um livro corajoso e importante. Eventos literários não são combates de boxe. São o oposto. Os escritores são, em primeiro lugar, grandes leitores. É uma alegria para um escritor descobrir um bom livro. É muito bom.

P.—O senhor publicou obras infantojuvenis. Tenta ser mais cuidadoso com os temas, com a linguagem?

R.—Escrever para crianças é muito difícil. Crianças são normalmente muito mais atentas, e também mais exigentes do que os adultos. Escrever para crianças implica um regresso à infância. Temos de compreender como atrair para a literatura esse público novo, usando uma escrita rica, mas ao mesmo tempo acessível e inteligente. É um desafio enorme e uma grande responsabilidade. Acho até um pouco assustador.

P.—Em seus romances, há muitas referências brasileiras, passando de Jorge Amado a Machado de Assis, Paulo Coelho a Clarice Lispector. Qual a importância da cultura brasileira na sua formação?

R.—Cresci alimentado pela cultura do Brasil – pela literatura, a música popular, o teatro, o cinema e as artes plásticas. Isso aconteceu muito cedo, desde sempre, porque tenho muitos familiares diretos no Brasil – os irmãos mais velhos do meu pai eram cariocas. Do lado da minha mãe também tenho muita família brasileira.

P.—É tido como o escritor favorito de Dilma Rousseff, que chegou a recomendar a leitura de "O Vendedor de Passados". Por que acha que ela se identificou com sua obra? Qual sua opinião sobre o impeachment?

R.—Aquele livro é uma sátira política sobre a construção de falsas identidades. Tem muito a ver com o Brasil. Com o momento que o Brasil atravessa. O afastamento de Dilma dividiu o Brasil, mas não a comunidade internacional. Fora do Brasil, a condenação ao que se passou, a forma como decorreu todo o processo, foi praticamente unânime. Jornais de esquerda e de direita condenaram o impeachment e se solidarizaram com Dilma, uma mulher sob a qual não pende uma única acusação de corrupção, e que foi julgada e afastada por pessoas que, na sua maioria, enfrentam problemas com a justiça. O único objetivo dessas pessoas é retomar o controle do sistema judicial e deter a Operação Lava- Jato.

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Quando 14/9, às 19h30
Onde Auditório Flim, no Centro de Convivência Renato Celidônio, anexo ao Paço Municipal
Preço grátis
Mediação Alexandre Gaioto

Divulgação
José Eduardo Agualusa, que participa de mesa-redonda no dia 14 de setembro