Paulo Leminski está mais vivo do que nunca. Sua literatura é devorada por pré-adolescentes, adultos e idosos, seu estilo é elogiado por doutores em literatura e seus versos viram tatuagens, são compartilhados no ciberespaço e musicados por instrumentistas diversos. O "cachorro louco" curitibano, como ele mesmo se definiu num dos poemas, desembarca em Maringá hoje à noite, em grande estilo, com uma exposição no Calil Haddad que reúne cerca de mil itens de sua trajetória.

A mostra itinerante, que tem entrada grátis e permanece até 24 de setembro, conta com algumas preciosidades, como a escrivaninha e a máquina de escrever de Leminski, poemas escritos em guardanapos, originais datilografados, além de livros escritos e traduzidos por ele e de obras que faziam parte da sua biblioteca. Leminski também será tema de show, palestra e a programação terá até visita guiada com familiares do poeta.

A curadoria de "Múltiplo Leminski" é da filha Áurea Leminski, de Alice Ruiz, ex-esposa de Leminski, e de Estrela Ruiz, filha de Alice. Dividida em vários espaços, as instalações abordam o trabalho de Leminski como músico, compositor, tradutor, ensaísta e publicitário, além de poeta. "Nosso trabalho é apresentar todas as facetas dele", adianta a filha Áurea Leminski, que fará uma visita guiada à exposição amanhã, às 14h.

Em entrevista ao Diário, Áurea avalia a produção do pai e comenta a relação dele com o recluso contista Dalton Trevisan e com o severo crítico literário Wilson Martins, ambos curitibanos.

P.—Quais recordações você guarda do Leminski?

R.—Meu pai faleceu quando eu tinha 18 anos. Lembro dele produzindo, escrevendo muito. Meu pai trabalhava na agência de publicidade, mas a produção artística dele era toda em casa. Sempre o vi compondo, falando sobre literatura, sobre as conferências que ministrava e as coisas que tinha acabado de ler. Lembro, também, das festas com muita música, festas que eram alegres, sem formalidades, espontâneas e nunca tinham hora para acabar.

P.— Acha que ele é tão reconhecido quanto merecia?

R.—Em Curitiba, há pessoas que não sabem o motivo da Pedreira Paulo Leminski ter esse nome, embora o nome de meu pai já esteja difundido nos meios literários. O reconhecimento faz parte de um processo. Muitos leitores nem eram nascidos quando ele morreu, e hoje são fãs. Nosso trabalho é apresentar todas as facetas do Leminski. Não apenas a poesia, mas as letras de canções, todas as suas facetas.

P.—Como explicar o sucesso dele com as gerações mais novas?

R.—A forma da comunicação sempre foi à frente do tempo dele. É um jeito extremamente moderno, preciso, conciso e objetivo de falar as coisas. O poema-ideia se identifica com a proposta das redes sociais, que é falar o máximo com o mínimo. Ele foi o defensor do grafite muito antes do grafite chegar a ser reconhecido como arte. Era uma transgressão na época, e hoje faz parte do cotidiano dos jovens.

P.—Como você avalia as letras de canções?

R.—Ele era muito eclético, influenciado por diversos gêneros musicais, e isso influenciava as letras. Com o Moraes Moreira, tinha o universo dos Novos Baianos e da brasilidade, que é diferente das parcerias com a banda Blindagem, que tem uma característica muito rock n' roll. Quase todas as letras foram escritas para virar canção.

P.—A influência de seu pai é evidente em novos autores?

R.—Sim, vejo muitos novos escritores em conversa com a poesia do meu pai, apesar de fazerem uma poesia original. Acho que todo escritor tem isso: os escritores amam os escritores.

P.—Acha que a literatura de sua mãe, Alice Ruiz, será ainda mais reconhecida daqui a uns 30 anos?

R.—Ah, sim! Todo artista sempre será. Parece que as pessoas são perdoadas e a gente passa a olhar só para a arte deles, que passa a ser mais reverenciada.

P.—Há um rumor de que Leminski, no leito de morte, teria perguntado, meio angustiado, se ele havia inspirado o personagem Trapo, do romance homônimo do Cristovão Tezza, publicado em 1989. Isso realmente aconteceu?

R.—Não... Ele nunca se revoltou com isso. Particularmente, eu não acho o personagem parecido com meu pai.

P.—Seu pai admirava a escrita de Cristovão Tezza?

R.—Olha, não tenho muito vivo isso na minha memória, mas acho que ele gostava.

P.—Seu pai chegou a ter contato com Dalton Trevisan?

R.—Acho que eles, provavelmente, devem ter se cruzado, mas acho que ninguém falou com ninguém. Houve uma época em que meu pai teve uma resistência em escrever contos... Ele afirmou que era um gênero menor, e disse isso no momento em que Dalton tinha a fama de ser o maior contista do Paraná. Foi só isso. A divergência entre os dois era alimentada pelos outros, não por eles.

P.—Seu pai tinha livros de Dalton Trevisan em casa?

R.—Sim, acho que ele deve ter ganho algum livro do Dalton, presenteado por alguém. Não me lembro dele criticando o Dalton. Eu era uma pré-adolescente.

P.—Wilson Martins, um dos maiores críticos brasileiros, não apreciava muito a poesia que seu pai produzia.Seu pai se importava com essas críticas negativas?

R.—Ele se importava, mas era muito autoconfiante. Ele tinha consciência do que fazia. As críticas nunca o abalaram. Ele tomava aquilo como uma provocação e isso fazia com que ele escrevesse ainda melhor. O Wilson Martins era um acadêmico formal e as divergências entre ele e meu pai apareciam na imprensa. Não era uma preocupação constante. O Wilson criticou e, por via da imprensa, meu pai também o criticou.

MÚLTIPLO LEMINSKI
O quê mostra itinerante
Abertura quinta (8), às 19h
Até 24 de setembro
Horários segunda a sexta: 9h às 17h. Sábado e domingo: 14h às 18h
Onde
Teatro Calil Haddad, avenida Luís Teixeira Mendes, 2500, Zona 5
Quanto grátis

ÁUREA LEMNISKI
O quê visita guiada à mostra
Quando 9 de junho, às 14h
Onde Calil Haddad
Quanto grátis

ESTRELA LEMINSKI
O quê show com canções de Paulo Leminski
Quando 24 de agosto, às 20h30
Onde Calil Haddad
Quanto grátis

JOSÉ MIGUEL WISNICK
O quê palestra sobre a literatura de Leminski
Quando 24 de agosto, às 17h
Onde Casa da Cultura, avenida Dona Sophia Rasgulaeff, 693, Jardim Alvorada
Quanto grátis

ALICE RUIZ
O quê visita guiada à mostra
Quando 24 de agosto, às 15h
Duração 40 mins.
Onde Calil Haddad
Quanto grátis

Divulgação
O poeta curitibano Paulo Leminski: escrita à frente de seu tempo