Um dos grandes acertos das últimas edições da Festa Literária Internacional de Maringá (Flim) corre sérios riscos de não se repetir este ano: a programação da Flim, prevista para os dias 26 a 29 de outubro, pode ficar sem um nome consagrado da música, conforme adiantaram ao Diário o curador Antônio Carlos Sartini e o diretor de cultura Mateus Moscheta. Os organizadores estudam investir parte do orçamento de R$ 300 mil em um espetáculo teatral ao ar livre, com elenco famoso.

"Os eventos culturais devem aproveitar tudo de bom no que houve nos anteriores, mas, também, devem inovar", acredita Sartini. "Não estamos ignorando os acertos da Flim. Teremos atrações musicais, mas não serão artistas conhecidos. Devido à verba, não conseguiremos trazer um ícone da música, como nas edições passadas. O grande nome nacional, dessa vez, pode ser teatral", adianta Moscheta, que também atua na cena local como diretor de teatro.

Em 2015 e 2016, a Flim contou com palestras e shows de Jorge Mautner – que cobrou cachê de R$ 10 mil – e Tom Zé. Os cantores e compositores levaram um bom público para o evento e, entoando músicas repletas de poesia, anteciparam a discussão do valor literário das letras de canções que viria à tona no final do ano passado, com o Nobel de Literatura – pela primeira vez na história do prêmio concedido a um cantor e compositor, o gênio norte-americano Bob Dylan.

Segundo Moscheta, a Flim deste ano terá uma programação mais "enxuta" do que as edições anteriores, que já contaram com autores renomados como o manaura Milton Hatoum, o angolano José Eduardo Agualusa e o mineiro Mario Prata. "Tivemos pouco tempo para preparar a festa", justifica o diretor de cultura maringaense.

Mia Couto

Ao Diário, o curador da Flim fez mistério sobre os nomes que estão sendo sondados para a 4ª edição da festa e afirmou que "não é impossível" trazer Mia Couto a Maringá. "Não é por questão de cachê. O Mia Couto cobra cerca de R$ 15 mil para participar de um evento literário. O problema é que ele tem a agenda cheia", diz Sartini, que conhece pessoalmente o romancista moçambicano.

Será a primeira vez que Sartini assumirá a curadoria da Flim e ele deve fazer visitas, em breve, para conhecer melhor a cena cultural local. "Maringá é reconhecida como a cidade que tem o maior número de livrarias por habitante no Brasil, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro", diz Sartini. Procurada pela reportagem, a Câmara Brasileira do Livro comentou, porém, não ter conhecimento dessa pesquisa.

A mais recente pesquisa com esse objetivo foi realizada em 2014 pela Associação Nacional de Livrarias, e Maringá definitivamente não estava entre as melhores, diferentemente do que afirma Sartini. À época, a cidade contava com 14 livrarias – contabilizando as várias empresas do segmento religioso. Hoje são 10, contabilizando as religiosas, o que resulta, aproximadamente, em uma livraria para cada 40 mil habitantes – a Unesco indica uma para cada 10 mil habitantes e o Brasil tem em média uma livraria para cada 64 mil pessoas.

Diretor do Museu da Língua Portuguesa por uma década (1996-2016), Sartini organizou quatro feiras literárias em Sorocaba (SP), no final dos anos noventa, e fez parte do trio de curadores da 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2012, ao lado do apresentador de TV Zeca Camargo e do jornalista Paulo Markun. Durante sua trajetória, também organizou festivais de teatro.

"O que eu posso adiantar é que a Flim será bem diferente das anteriores", avisa Sartini. "A ideia é aproximar mais a festa da cidade, dos movimentos culturais, artistas e coletivos, dos corpos estáveis de música, do balé da cidade. A ideia é abrir mais para a própria cidade", diz.

Questionado se a troca de um espetáculo musical por um teatral não iria justamente contra a proposta de aproximação da festa com a cidade, o curador disse acreditar que o teatro tem a capacidade de atrair tanta gente quanto um Jorge Mautner ou um Tom Zé, por exemplo.

"Não é porque em anos anteriores teve grandes shows que, neste ano, nós estejamos obrigados a usar a mesma fórmula. Nós queremos que o público vá ao espetáculo, atraído por nomes conhecidos, e depois aproveite a festa literária. Os shows, às vezes, podem nos levar a um equívoco: as pessoas são atraídas pelo show, e não pela festa em si. Assistem ao show, e vão embora."

Não foi isso, porém, o que aconteceu nas edições anteriores da Flim, com Jorge Mautner e Tom Zé levando um grande público para o debate literário que antecedia as apresentações musicais: quase tanta gente quanto nos shows. Informado sobre isso, Sartini limitou-se a dizer que não esteve presente nas edições anteriores e que Jorge Mautner e Tom Zé "são dois nomes extremamente interessantes".

Velhos x novos

A maioria dos nomes em negociação, segundo Sartini, não participou das edições anteriores da Flim. Mesmo sem um único escritor confirmado até o momento, a festa já tem uma grande baixa: o premiado romancista português Valter Hugo Mãe recusou o convite devido à agenda cheia.

Enquanto não saem os nomes, os organizadores seguem em diálogos com autores brasileiros jovens e experientes. "A beleza da festa vai ser esse encontro de gerações com autores consagrados e nomes que despontaram recentemente", promete Sartini.

4ª FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE MARINGÁ
Quando 26 a 29 de outubro
Onde Centro de Convivência Renato Celidônio, ao lado do Paço Municipal

Divulgação
"A Flim será bem diferente das anteriores", avisa o curador Antônio Carlos Sartini