Fúlvio Stefanini viveu na pele todas as mudanças televisivas: as produções essencialmente ao vivo, os tempos do videotape, o surgimento das cores substituindo o preto e branco, a inovadora era digital. Protagonista e testemunha, hoje aos 77 anos o ator lamenta a "decadência artística da TV brasileira", com novelas produzidas apenas para satisfazer os desejos simplistas do grande público: "A massa fica mais presa ao emocional do que ao racional", critica.

Em 60 anos de carreira, foi no teatro que o ator emplacou seus personagens prediletos. Um dos melhores papéis, de toda essa trajetória, pode ser contemplado neste sábado (2), no Teatro Calil Haddad, quando Stefanini apresenta "O Pai", que lhe rendeu o Prêmio Shell deste ano na categoria melhor ator.

Em entrevista a O Diário, o ator admite que os argentinos são melhores cineastas do que os brasileiros, afirma que jamais votaria em Lula ou Bolsonaro e comenta o espetáculo que chega ao teatro maringaense.

P.—Qual a importância de "O Pai" dentro da sua trajetória?

R.—É um papel raro para a minha idade. É um personagem extremamente forte, há uma possibilidade de criação. Ele pode ser visto de diversas formas: humana, verdadeira, sincera e teatral.

P.—O pai desta peça é o melhor papel que o senhor desempenhou em sua carreira?

R.—Não vou dizer que é o melhor, mas é um dos três melhores. Ele já está na minha galeria, junto com "Caixa Dois", com um personagem muito comunicativo e que a plateia embarcava de uma forma incrível na maneira que eu fiz. E com a "A Grande Volta", que fiz com Rodrigo Lombardi, e a plateia gostava demais, e que também ganhou o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Os papéis mais importantes, eu fiz em teatro.

P.—Os prêmios são essenciais?

R.—Os prêmios são bem-vindos, mas não corro atrás deles.

P.—E na TV?

R.—Teve o Tonico Bastos, em "Gabriela". Mas, na TV, meus personagens eram mais lineares, não davam margem a uma grande interpretação. A TV é mais descartável, é urgente. No dia seguinte, é preciso encenar outra coisa. Mas dá para fazer bons trabalhos.

P.—É mais fácil fazer TV nos dias de hoje ou há seis décadas?

R.—Tudo foi ficando mais fácil do ponto de vista tecnológico. A imagem é maravilhosa. Os efeitos visuais, as imagens sedutoras... Mas, do ponto de vista artístico, houve uma decadência da TV brasileira.

P.—Culpa da qualidade dos atores?

R.—Há atores maravilhosos, mas o que prejudicou a TV são os interesses, o conteúdo. Na minha época, buscávamos uma qualidade de interpretação, de conceito. A preocupação foi se perdendo com o tempo. Hoje, a TV só visa o ibope e o faturamento.

P.—E as minisséries?

R.—As minisséries são boas, há boas séries. Nós temos um padrão de qualidade na TV do Brasil que é respeitado no mundo inteiro, mas o conteúdo mudou. Não se transforma nada através da TV, o que pode ser feito é sinalizar algo.

P.—O conteúdo não melhora por que a massa não quer algo melhor?

R.—A massa fica mais presa ao emocional do que ao racional. Hoje, a novela tem participação de grupos de discussão que dificultam a criação das novelas.

P.—Como assim?

R.—Geralmente, são grupos de 100, 120 pessoas, quase todas mulheres, que se encontram e discutem as diretrizes da novela, opinando no destino dos personagens. A novela é popular, é feita em cima de interesse, de pesquisa. E com base na opinião desses grupos, que não têm nenhum roteirista: uma bobajada.

P.—Algum personagem do senhor já sofreu mudança na trajetória devido à influência desse grupo?

R.—Provavelmente, sim. A gente não fica sabendo. São reuniões a portas fechadas.

P.—Se as eleições fossem hoje, em quem votaria para presidente?

R.—Não seria o Lula: ele não é o melhor caminho. Bolsonaro, então? Deus me livre desse homem (risos)! Eu gostaria de votar no Dória, que é meu amigo, tem uma boa história de sucesso e, pelo menos até agora, foi absolutamente honesto.

P.—Na sua opinião, os argentinos são mais talentosos do que nós no cinema?

R.—Eu acho que sim. O cinema argentino é bem feito e há roteiristas bons. O cinema brasileiro também tem coisas boas, mas o cinema argentino vem vindo com força há alguns anos. Eles estão com um prestígio internacional muito grande. O Ricardo Darín, por exemplo, é um ator maravilhoso. Tive a oportunidade de vê-lo duas vezes no teatro na Argentina.

O PAI
Quando sábado (2), às 21h
Onde Teatro Calil Haddad, na avenida Dr. Luiz Teixera Mendes, 2500 
Quanto R$ 60 (meia-entrada ou assinantes do Diário - 1 ingresso por assinante) / R$ 120 (inteira), à venda na Genko Mix (shopping Maringá Park)

Divulgação
Fúlvio Stefanini: ator se apresenta no sábado (2) em Maringá