O escritor irlandês James Joyce (1882-1941) não nasceu dominando as fórmulas para transgredir e subverter heroicamente a literatura mundial. Antes de por tudo isso em prática, foi preciso suor e reflexão, além da criatividade acachapante. "Ele levou catorze anos construindo a voz própria para o romance 'Ulisses' e vinte e um para 'Finnegans Wake'. Nesse andar, só podia escrever mesmo uns poucos romances", observa o romancista e intelectual Teixeira Coelho, em entrevista concedida por e-mail a O Diário.

Da mesma forma como o gênio irlandês encontrou sua própria forma de escrever, os jovens autores brasileiros também devem encontrar um jeito de redigir narrativas de formas inconfundíveis: lançar-se ao mar, nadando por conta própria, é uma das dicas de Teixeira Coelho. "Com a quantidade de escritores de hoje, achar a 'voz própria' é condição para sair da massa informe e sobreviver", aconselha o autor do romance "História Natural da Ditadura" (2006), ganhador Prêmio Portugal Telecom.

Principal atração da Semana Literária do Sesc - confira ao lado outros destaques -, Teixeira Coelho vai participar de um bate-papo sobre criação literária nesta terça-feira, às 20h, no salão social do Sesc. A conversa, segundo o escritor, será no mesmo clima dessa entrevista. "Procurarei proceder como aqui escrevo: abrir um ambiente propício à troca de experiências e ideias", adianta.

Na conversa a seguir, o ex-curador do Masp e do Museu de Arte Contemporânea (MAC) aproxima a literatura da pintura e critica a desvalorização das artes no Brasil. "Corriqueiramente, a literatura não tem importância neste País", decreta.

P.—O senhor acredita que é possível ensinar alguém a ser um escritor?

R.—No sentido habitual que a palavra "ensinar" tem no Brasil, não: não acredito. Mas, nesse sentido tradicional da palavra "ensinar", não se ensina quase nada a quase ninguém em qualquer domínio neste País, em particular na escola pública de primeiro e segundo graus. É possível, no entanto, oferecer um ambiente de reflexão, de conversa, de troca de experiências cujos resultados podem ser traduzidos como um estímulo à decisão de escrever. O pragmatismo americano daria uma resposta mais afirmativa também neste campo: sim, é possível ensinar alguém a ser escritor e a ser qualquer outra coisa. Essa visão faz com que toda boa universidade ofereça um programa (não uma disciplina) de "creative writing", que quase sempre se traduz por "como escrever literatura de ficção" mas que não precisa limitar-se à literatura: o sociólogo, o artista visual, o jornalista, o economista, têm tudo a ganhar de um programa de "creative writing". Não temos essa prática no Brasil como iniciativa corriqueira. Talvez porque corriqueiramente a literatura não tem importância neste País.

P.—Quais livros um aspirante a escritor deve ler e quais não deve ler?

R.—Acima de tudo, não ler os manuais sobre como escrever. Fora isso, não há livro ou autor a privilegiar, nem livro ou autor a ser posto de lado. Cada corpus literário costuma ter um cânon composto por autores considerados imprescindíveis, pontos altos da criação literária. Um escritor em potencial nada ganha ignorando a existência dessas listas que traduzem o conhecimento de gerações, séculos ou milênios: seria tolice fazê-lo. Mas, não está obrigado a ler os títulos dessas listas. Lerá aquilo que lhe dá prazer: a criação não é uma questão de necessidade ou de dever, mas de prazer. E para descobrir o que lhe dá prazer, terá de experimentar e ler. Alguém escreve porque leu um livro antes, alguém pinta ou arma um tridimensional ou faz uma performance por ter visto outra antes. Tampouco é imprescindível ler obras da literatura de seu País, de sua língua oficial: a literatura, como toda arte, é do mundo, expressa o mundo, investiga o mundo e o que é estar vivo; a criação não é monopólio de nenhuma cultura nacional e nenhuma é melhor ou "mais imprescindível" ou urgente do que outra. O escritor em potencial tem de romper essas muralhas feitas de preconceitos dentro das quais se procura encerrá-lo. Quem deve ler alguma coisa é, infelizmente, o estudante que pretende ingressar na universidade – e esse dever costuma produzir o efeito contrário ao que se diz buscar: o desgosto ou o ódio à literatura.

P.—Quão importante é o processo de imitação para quem começa a escrever e como fazer para encontrar a voz própria?

R.—À época de Michelangelo, na Renascença, para praticar a profissão o aspirante deveria demonstrar que possuía capacidade suficiente - e isso fazia copiando à perfeição um mestre. Essa era a condição necessária. Mas não a suficiente: aceito na corporação de ofício de sua especialidade, o passo seguinte consistia em demonstrar que podia transformar-se ele mesmo em padrão a ser copiado, em mestre criativo e inovador. Imitar e inovar formavam um par indissolúvel. Na literatura, e na literatura contemporânea, é diferente: a imitação não tem vez, a imitação não é um valor nem como aprendizado. O aspirante a escritor tem de jogar-se no mar e nadar por conta própria. Pode ser que encontre a voz própria, como se diz, pode ser que não. James Joyce levou catorze anos construindo a "voz própria" para seu romance "Ulisses" e vinte e um para "Finnegans Wake". Nesse andar, só podia escrever mesmo uns poucos romances. Com a quantidade de escritores de hoje, achar a "voz própria" é condição para sair da massa informe e sobreviver.

P.—Graduação e mestrado em Letras podem ajudar alguém a ser escritor?

R.—Como tais e em si mesmas, não. Uma pós-graduação em Letras não é um exercício de criação, é quase sempre um exercício de reprodução. Não é muito diferente de um treinamento técnico que fornece, se tanto, as pistas para o reconhecimento técnico de um estilo, um movimento. E que com frequência resume-se a um empilhamento de datas, nomes e títulos, além de exercício de aplicação de teorias que busca comprovar como essas teorias funcionam mais do que investigar o livro, a literatura pretensamente estudada. Um pouco como na filosofia. E nas ciências sociais, de resto.

P.—O senhor conseguiria apontar qual é a principal característica da literatura brasileira contemporânea?

R.—Uma literatura nacional rica não tem característica principal – não mais, em todo caso. Fazendo-se um corte numa data qualquer, por exemplo, 1955, não será difícil ver que há pelo menos meia dúzia de literaturas (ou de estilos de arte visual) distintas, com pouco ou nada em comum. Há quem defenda a ideia de que a literatura inglesa moderna define-se pelo romance de espionagem (Graham Greene, John Le Carré) e de crime (Agatha Christie, Chesterton). Não creio que se possa dizer o mesmo da brasileira – sem esquecer, porém, o fenômeno de Paulo Coelho, sinônimo de literatura brasileira pelo menos no exterior. Seus livros traduzem a principal característica da literatura brasileira? Não creio.

P.—Ainda é possível inovar na literatura brasileira?

R.—A literatura é um gênero extremamente conservador, parece comportar pouca inovação, tem pouca margem de manobra. De outro lado, diz-se (pelo menos da boca para fora) que a preocupação com a inovação esgotou-se com o pós-moderno: o "velho" pode agora ser retomado, retrabalhado – só que a inovação também é isso... Existe uma inovação vertical na forma e no conteúdo, talvez aquela mais radical, e uma inovação no modo de combinar anteriores formas e conteúdos. Hegel defendeu a ideia de que a arte, em seu tempo, já se acabara como tal e que a partir dali poderia haver alguma coisa à qual se desse o nome de arte mas que já estaria morta antes de nascer. Na maioria das vezes, a mola da literatura não é a inovação (no modernismo foi) mas simplesmente contar uma história, fazer uma narrativa, pôr alguma coisa pra fora sem muita preocupação com inovação. E não existe muita coisa em termos de conteúdo humano. Para Etiénne Souriau, as situações dramáticas são em número de 200 mil, não mais. Vladimir Propp descrevia as funções narrativas (o protagonista ou "mocinho", o bem buscado, o oponente etc.) como sendo 31. Sob esse aspecto, não há muita margem para inovação. Mas sempre há alguma...

P.—Como será esse bate-papo sobre criação literária aqui em Maringá?

R.—Procurarei nela proceder como aqui escrevo: abrir um ambiente propício à troca de experiências e ideias. A melhor definição de cultura é a que a descreve como uma longa conversa. É o que penso fazer. E talvez falar um pouco do que faço em literatura. O pintor Volpi não gostava de ter alunos, transmitir sua técnica; uma jovem insistiu tanto com ele, certa vez, que ele respondeu: "Está bem, pode vir. Mas ficará sentada aqui e não dirá nada, não me perguntará nada: vai só olhar o que faço e pronto. Se abrir a boca, vai pra fora". Em literatura não dá para aplicar esse método, de resto excelente: se alguém ficar "do lado de fora" vendo o que faz um escritor, o desapontamento e o desencanto serão totais. Tudo se passa na cabeça do escritor, por vezes só se pode vê-lo andando daqui para lá, falando consigo mesmo... Sob esse aspecto, a literatura é a mais imaterial, a mais conceitual das artes. Na oficina terei de contornar esse problema...

P.—Quando o senhor assumiu a curadoria do Masp, em 2006, seu público era pouco mais de 300 mil visitantes por ano, crescendo seis anos depois para 850 mil. Como o senhor conseguiu fazer isso?

R.—Os fatores foram muitos: mudança de critério de organização e de exposição da coleção (não por períodos históricos, como tradicionalmente se fazia, mas por temas, por aproximação de estilos diferentes, de épocas distintas); atualização da linguagem expositiva; abolição das barreiras entre o "clássico" e o contemporâneo (toda grande arte é sempre contemporânea); e, em particular, contar histórias, usar as palavras para ancorar a experiência estética e com isso criar um leito para a experiência estética. Não de modo impositivo e obrigatório; mas os que buscassem essa narrativa iriam encontrá-la nas etiquetas, nos textos de parede. A narrativa, num museu, reduz o caos, organiza um pouco a entropia que encurrala o visitante não especializado – e ninguém está obrigado a ser um especialista em arte.

P.—O Masp tem mais Modiglianis que o Museu Nacional de Belas Artes, de Buenos Aires - sem contar o Modigliani do MAC. Nós, brasileiros, não damos valor ao acervo cultural que possuímos?

R.—Não, nenhum. Nem o Estado, nem os governos, nem os partidos políticos, nem a sociedade civil, nem as pessoas. Exagero um pouco: há alguns anos, uma pesquisa mostrou que o primeiro motivo para turistas irem a São Paulo era o Masp, quer dizer, a coleção que o Masp tem... Mas, o que são 800 mil pessoas numa cidade de 15 milhões, num País de 200 milhões de habitantes? O acaso me fez diretor do MAC, que tem o único autorretrato de Modigliani existente no mundo, e curador-chefe do Masp, com seus vários modiglianis que, ao lado de tantos Toulouse-Lautrec, Monet, Van Gogh, são sempre requisitados por museus do exterior para suas grandes exposições – exposições que quase nunca conseguimos trazer para cá. A coleção central desses dois museus brasileiros é pequena, numericamente – mas de primeira linha no cenário mundial. No entanto, ninguém se atreve a defender esse valor por aqui até as últimas consequências, o que implica apoiá-lo economicamente.

P.—Quais aproximações há entre os universos das artes visuais e da literatura?

R.—Mencionei o nome de Etiénne Souriau, autor de um livro precioso: "A Correspondência entre as Artes". Todas as artes se correspondem, todas convergem, cada uma a seu modo, para um mesmo ponto. Todas são um modo de poesia, literal e etimologicamente, uma construção. Quanto mais transcendental, mais rarefeita, mais humana. Todas se complementam: há coisas que não podem ser ditas (e se não é possível dizer alguma coisa, é melhor calar-se, escreveu Wittgenstein) mas para as quais se pode apontar com uma pintura, uma escultura, uma performance, um filme. Até mesmo a especificidade estrutural própria de cada linguagem artística, que só ela teria, é posta em xeque hoje pelo digital: um livro, uma partitura musical, um filme, uma tela podem ser traduzido pelo mesmo jogo entre 1 e 0 (aberto x fechado; aceso x apagado; passa corrente x não passa corrente) que caracteriza a linguagem computacional de agora. Isso deveria levar a refletir.

Divulgação
'A literatura não tem importância neste País', comenta Teixeira Coelho

SEMANA LITERÁRIA DO SESC

Cezar Tridapalli
Quando: 18, 19 e 20/9, das 13h30 às 17h30.O quê: oficina de criação literária.
Quando: 20/9, às 20h.O quê: palestra sobre o tema “Literatura e Cidades”

Teixeira Coelho
Quando: 19/9, às 20h.
O quê: bate-papo sobre o tema “Criação Literária”.

Estrela Ruiz Leminksi
Quando: 21/9, às 20h
O quê: palestra sobre o tema “Literatura e Música”

Cléo Bussato
Quando: 22/9, às 20h
O quê: palestra “Leitura Literária para Recanto da Vida”

36ª Semana Literária do Sesc
Quando: de segunda a sexta-feira, no Sesc (Av. Duque de Caxias,1517).
Quanto: entrada franca.
Saiba mais: veja a programação completa no site do Sesc de Maringá