A literatura brasileira contemporânea está mais preocupada "em narrar de forma pasteurizada que experimentar", apropriando-se de narradores "nus e superficiais" e investindo na "repescagem de velhos temas".

Quem dispara essas duras críticas é o escritor e editor Ademir Demarchi, maringaense radicado em Santos (SP). Doutor em Literatura pela USP, Demarchi é autor de "Pirão de Sereia" (2012) e "Siri na Lata" (2015). Seu lançamento mais recente é o livro de poesia "O Amor é Lindo" (2016, Editora Patuá).

Uma das atrações da 4ª edição da Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), Demarchi faz palestra neste sábado (28), às 10h30, sobre o tema "Poesia Contra o Estado de Exceção" para refletir a produção contemporânea e apresentar a revista Babel Poética.

O Amor é Lindo, seu lançamento mais recente, é um livro com poemas inspiradores e muito maduros. Na sua opinião, a obra foi tão lida quanto merecia?

Foi lida por um número seleto de amigos, vinte se muito, poucos opinaram, sendo você agora mais um, ao dizer numa frase enigmática que são inspiradores (do que mesmo? e muito maduros; ora, os figos e os cajus que adoro também o são!). É a regra, em poesia, não tenho expectativas, almejo, no máximo, publicar. E para isso se vai todo um esforço de que já não resta energia para laçar leitor na savana. E esse ato é tal como aquele de náufrago que joga garrafa com bilhete ao mar. É inesperado que alguém encontre. Mas é curioso, de meu trabalho de escritor, constante, ao longo do tempo venho recebendo sempre alguma opinião furtiva, algum comentário inesperado, de conteúdo valioso, constatando que há pessoas que andam atentas, o que me salva de salva em salva. Leva tempo. Aprendi a lidar com esse silêncio, estou o tempo todo em um templo. Como poderia eu, escondendo, como deve ser, o ego como um gato debaixo do tapete (eu estava quieto aqui em meu canto...) dizer quantificando que o livro foi lido suficientemente? Não saberia, sou péssimo em números, te sugerir quanto mereceria, se mais ou se menos. Pelos poucos, creio que suficientes. O livro teve uma tiragem de 100 exemplares. Não tenha dúvida de que equivale matematicamente aos cem milhões do colega Paulo Coelho. Desses números se pode constatar que quem o leu, se gostou, talvez tenha lido por inúmeros. Trata-se, portanto, de leitor valioso para mim, mas acaba aí a constatação pois já não sei se sou escritor que valha na mesma medida para o leitor, pois é preciso que se diga: sou primeiro leitor e considero leitor ouro, escritor prata. Estou pouco me lixando para essa matemática estranha ao que faço, pois o leitor é uma miragem para mim, nem chega a ser uma fantasia, pois acredito que isto que chamam de país tem 75% de analfabetos escravos funcionais; dos outros 25%, pelo menos 20% estão lendo celulares ou preocupados em cavalgar no lombo dos 75% e domar os 5%. Poesia é para raros. As pessoas em geral que não têm hábito de leitura querem livros que falem bem do amor. Ainda que seja capaz, nunca daria isso a elas. À estupidez não se dá capim. Cem está de bom tamanho.

Qual a importância de O Amor é Lindo em sua trajetória literária?

Me senti uma bala perdida ao atribuíres ao meu culto à sensibilidade uma trajetória, eis que concluo que tem sido a esmo o tiroteio. Meu destino é pecar no desvio contumaz do alvo que se diz o literário. O Amor é Lindo celebra aquele adjetivo que você me pespegou como um emplasto Salompas no lombo: a madureza. Ter sobrevivido à mastigação paciente de fardos sem fim de alfafa plantada por gente como Cioran, Machado, Dostoiévski, me possibilitou aqui chegar, após subir toda uma montanha, e constatar que tudo que se refere ao humano é uma piada, por isso o livro é irônico e se a maturidade nos dá algum conforto, a mim deu o de que não preciso me torturar com dúvidas, tampouco me cegar de certezas, é suficiente que se ria dos que aprisionam a mente, a si e ao corpo nessas bobagens, em ciúmes, em ódios, em posses, em desejos de poder e de controle do outro ou na apropriação do Estado, do que é público. Assim, O Amor é Lindo se junta com perfeição a Os Mortos na Sala de Jantar, pois ambos expõem a finitude humana, a sordidez de que é capaz o ser humano, a ingenuidade parva, os ódios inúteis. Gosto de respirar, ganhei essa certeza. O Amor é Lindo é um gozo.

Por que os livros de poesia são tão difíceis de serem vendidos no Brasil?

Meu primeiro impulso seria dizer que não há tanta poesia que valha ser lida dos novos pois hoje até os porteiros noturnos de seus ócios tiram livros e ao amanhecer saem cantando à primeira luz se achando galos e quando muito saem do sonho travestidos de galinhas que acordaram descobrindo debaixo de si um ovo que dizem, crendo como evangélicos: disso vai sair um galo. Está mais fácil publicar. Acho que até mais fácil que ler... Mas isso tem lá sua importância relativa, afinal não é fácil a vida de um porteiro, assim como há uma massa crescente de gente se movendo com essa fantasia e que consegue diálogo com as meia-dúzias de pessoas que sempre estão à volta de cada um. Mas é notável, há muita fantasia ingênua na quantidade imensa que se publica hoje, resultado de poucas leituras. Porém a resposta à sua pergunta está, como já mencionei, no analfabetismo e na miséria, que são as marcas do orgulho nacionalista do Brasil, daqueles que governam pela constante implantação da República Escravagista do Brasil. A poesia de boa qualidade é muito publicada, sempre em pequenas tiragens, há muitíssima tradução de estrangeiros no Brasil, ultimamente chega a ser caríssimo acompanhar, tantas são as edições de qualidade. À poesia, aos livros de poesia, falta intensificar o trato editorial que faça com que se pareçam com caixas de sabão ou obras de arte sofisticadas para atrair fregueses, tal como a Companhia das Letras vem fazendo com sucesso ao lançar as poesias reunidas de mortos que vão se tornando ilustres por essa assunção editorial, casos de Leminski, Waly Salomão, Anna C, que se parecem com as caixas de sabão, mas há primorosas edições, de outra parte, como as feitas pela Demônio Negro, Perspectiva, Autêntica, 34. As tiragens em geral ficam nos mil exemplares para essas edições mais comerciais. Fora disso, a nova poesia e muitas traduções também, se disseminam como a peste em pequenos selos editoriais que são a grande novidade, formando um mercado de pequenas feiras que tem sido constante.

Quão importante é para você, enquanto poeta, atuar como funcionário público? Isso prejudica ou melhora a sua poesia?

Olha, um dia descobri que, como todos, teria que rodar bolsa em algum lugar... Como não gosto do relento, a gana e a errância de braços dados me levaram a isso, a sentar-me em uma mesa e pensar de dentro da entranha do público como ele é manipulado. Não pense, obnubilando sua mente com o habitual preconceito que acomete as pessoas em geral, que a vida de funcionário público é fácil. De minha parte, tendo entrado como um redator-revisor escravo de analfabetos (o que é a vida de um redator-revisor senão ser escravo ao dar voz a analfabetos levando chibatadas da ignorância?), há uns dois anos passei a ocupar função de diretor, atualmente, inacreditavelmente, em vez de multiplicar heterônimos, estou acumulando cargos, dois de diretor, administrativo e legislativo e presidente da comissão de licitação e pregoeiro - ao mesmo tempo. Gostaria de ser mesmo um plenipotenciário do nada, mas as condições me levaram a isso de forma inevitável. Nem eu acreditava que seria capaz de tanto. Daí que, para me manter criativo e não perder a razão, tenho acordado às cinco, às seis, para trabalhar até meio-dia com literatura e depois alugar meu cérebro integralmente por umas seis horas com pessoas, coisas, problemas em geral absurdos. Tenho ganhado bem para isso, do que não posso reclamar da circunstância. À noite pouco resta de vital. Neste ano, desde janeiro, me ocupando com esses três cargos, opus a eles para manter a sanidade uma alta produtividade: estou fechando três edições, atualmente na terceira edição da BABEL, que retorna do número 7 ao 9 após um prêmio do Governo do Estado de São Paulo, via ProAc, todas em breve, neste mês ainda, serão lançadas. Só aí são 450 páginas de poesia. Estou publicando junto um livro de 350 páginas com ensaios literários meus, Espantalhos, resultado de outro prêmio, da Prefeitura de Santos. Escrevi e publiquei um conto que tem sido muito elogiado, saído em uma antologia comemorativa dos 100 anos russos, 1917/2017, publicada pela Editora Patuá. Fui conhecer a Rússia, Moscou e São Petersburgo, me maravilhei com minha mulher Carmem e meu filho, Brenno,  que mora em Marília, estudando ciências sociais e já andam escrevendo uns poemas! E na FLIM estou lançando também, com o Gilmar, seu livro com a tradução do poema Terra Árida, de T. S. Eliot, para o qual escrevi um estudo introdutório que muito prazer me deu. Quanto à pergunta inicial, diria que em qualquer lugar que estivesse me contaminaria pelo meio e nenhum deles me impediria de escrever, pois isso que faço é para mim fundamental. Se não o tivesse para fazer, já não estaria entre os vivos.

O jornalista e escritor norte-americano Tom Wolfe costuma dizer aos alunos de Jornalismo que não escrevam romances, porque todos os grandes romances nos EUA já foram escritos, mas que escrevam grandes reportagens. Na sua opinião, ainda há grandes romances a serem escritos no Brasil ou a saída para os novos autores é recorrer às grandes reportagens?

Ambos podem ser feitos. A diferença é que para romances o talento deve ser maior, ainda que para uma reportagem bem feita exija-se capacidade de escrita e imaginação tanto quanto. A criatividade humana é ilimitada, portanto é uma idiotia acreditar que algo tenha se esgotado. Eu diria que se altera, apenas. O tempo presente sempre renova, com o conteúdo e a percepção diferente, a forma. É evidente que se podem escrever ótimos romances no Brasil, talvez não haja, apenas, escritores à altura, ainda que haja muitos ótimos ou, nesse caso, em condições. É uma situação difícil, paradoxal: para ser escritor é preciso ter outros empregos, fazer serviços diversos, escrever em jornal, dar cursos ou aulas etc. A ausência de dedicação exclusiva e ganho estável já de cara anula a possibilidade de escrita artística, por isso há uma mediania produtiva, uma pasteurização estética, imposta pelo mercado pequeno que existe, de forma que seja palatável a esse pequeno público leitor. Há muito para se escrever sobre o Brasil, o tempo todo. Atualmente falta quem escreva romances sobre como vivem, transam, comem, se lambuzam essas elites dirigentes, esses políticos que estão lá em Brasília, ou esse povo que se submete como vacas pacíficas indo para os abates dos frigoríficos da JBS virar linguiça para ser exportada.

Você arriscaria dizer qual a principal característica da literatura brasileira contemporânea?

Ela é urbana, está mais preocupada em narrar de forma pasteurizada que experimentar, sendo por isso superficial no geral. O escritor não tem muito tempo, pratica a mediania, fica na repescagem de velhos temas, está sempre chafurdando em histórias familiares, em romances e estórias de amor, em narradores que estão tão nus e superficiais, sem aquele tom demoníaco de Machado, que se parecem demais com o próprio escritor.

Entre os livros mais recentes no Brasil, o que mais te surpreendeu?

Machado, de Silviano Santiago. Mas gostei de ler alguns outros, como o irônico A jaca do cemitério é mais doce, do Manoel Herzog, que depois de vários livros de cem exemplares pela Patuá, estreou na Alfaguara; a nova ficção errante de Joca Terron, Noite dentro da noite; Veneza, do ótimo poeta Alberto Lins Caldas, que escreveu, dessa vez, uma ficção. Li pouca ficção este ano porque a demanda foi por poesia, para selecionar textos para as 450 páginas somadas das 3 BABEL. Devo ter lido uns 300 livros, mas as grandes descobertas foram a obra de Celso de Alencar, de Leonor Scliar-Cabral e de Alfredo Fressia, que li integralmente para as edições da revista.

Quais são seus próximos projetos literários?

Lançar este ano ainda 3 edições da BABEL e um livro de ensaios literários, Espantalhos. No ano que vem, revisar e publicar um livro de contos que está pronto (A tênue película que nos separa deste mundo) um livro de crônicas/contos de Ricardo Palma (Tradições peruanas apimentadas) um peruano que traduzi; escrever um romance iniciado; publicar outro livro de ensaios, sobre poesia, mais uma edição da BABEL. Talvez novo livro de poemas.

O que pode adiantar sobre a próxima edição da Babel?

As três que estou lançando têm como tema geral uma coletânea de poemas selecionados “Contra o Estado de Exceção”, são poemas muito críticos, politizados mesmo, eu diria, de protesto contra a situação absurda pela qual passamos no Brasil desde o ano passado, quando se deu um golpe de Estado jogando no lixo as últimas eleições, por mais críticas que se possam fazer à mediocridade do governo de Dilma Roussef. Estamos vivendo sob uma suspensão das leis, sob um ataque ao Estado de Direito, promovido por grupos empresariais que estão assacando o espaço público, as riquezas, promovendo e agravando a exploração, o analfabetismo e a miséria (voltamos a ter fome no país, que havia sido erradicada no governo Lula). É contra esse estado de coisas que a revista se faz. As edições têm material especial como dossiês sobre poetas como Celso de Alencar, Leonor Scliar-Cabral, poetas peruanos, um livro de Geraldo Ferraz sobre o massacre de Guernica e muito mais, enriquecido com traduções também de poetas da China, Japão, Inglaterra. Outra novidade é que, nesta fase, ela passa a ter como co-editores dois ótimos poetas que acompanham a história da revista, são dois catarinenses, Dennis Radünz, de Florianópolis; e Cristiano Moreira, de Rodeio-SC. Dennis tem uma editora que publica livros de arte e ensaios, é um poeta muito respeitado pelos livros que publicou, graças à sua poética rigorosa na crítica e na economia da linguagem, um editor múltiplo. O outro, Cristiano Moreira, com livros vários publicados em que o tema da vida de pescadores e fabricantes de navio possibilitam uma peculiar exploração da linguagem poética; não bastasse isso, Cristiano é uma espécie de artista múltipla com trabalho de formação de leitores (criou um contêiner biblioteca que  circularam pelas cidades da região de Navegantes e agora está no Vale Europeu, próximo a Blumenau; junto ao contêiner ele tem uma Biblioteca Rural, montada numa Rural Willys que circula pelas cidades formando leitores. E, para completar, agora ele inaugurou uma tipografia que resgata a arte do livro como era antigamente e, com esse trabalho, ele fará intervenções nas edições da Babel, com encartes, impressões tipográficas. Além disso a revista, além de ter uma quantidade impressa, agora terá um site e disponibilizará as edições integralmente para fácil acesso pelos leitores. É importante ressaltar que isso somente está sendo possível graças ao Prêmio atribuído a esse projeto pelo ProAc, da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo. As edições são colaborativas, ninguém ganha nada pra fazer, pois o prêmio é bom mas é insuficiente, porém dá ganas de trabalho e as edições estão excelentes em conteúdo e graficamente.