O estudante de Letras ou Jornalismo que tentar investigar a trajetória do consagrado escritor mineiro Luiz Ruffato, no cenário jornalístico, certamente vai se frustrar. "Fui um repórter medíocre. Quem vasculhar algo sobre mim, não vai encontrar absolutamente nada. Não escrevi e, o que é engraçado, nunca fiz nada sobre cultura", comenta o autor, que, por trás das reportagens, atuou como editor de política e economia em jornais mineiros e no Jornal da Tarde, de São Paulo.

Uma das atrações da 4ª edição da Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), Luiz Ruffato participa nesta quinta-feira, às 19h15, de uma mesa-redonda com entrada grátis sobre "Literatura e Realidade". Será sua terceira vinda a Maringá. Em entrevista por telefone a O Diário, o autor fala sobre o processo de escrita de seus livros, comenta as polêmicas recentes envolvendo o erotismo nas artes e revela qual foi a grande lição que aprendeu com o jornalismo.

P.— Na hora da escrita, o senhor decide qual história vai narrar ou é a história que se impõe ao senhor?

R.— É um pouco das duas coisas. Nunca começo um livro antes de ter certeza que ele merece ser escrito. Os personagens precisam me convencer de que a obra precisa ser escrita. Quando eu me sento, me deixo levar pela história. É uma coisa meio inexplicável. Eu não decido as histórias. Me coloco à disposição para escrever um outro livro e, naturalmente, outro livro vai aparecendo. Esse processo pode demorar seis meses, um ano, ou anos a fio. "Inferno Provisório", por exemplo, começou a ser pensado quando eu tinha 18 anos. Levou mais de 30 anos para ser escrito. Não consigo explicar racionalmente como isso acontece.

P.— Isso não é assustador?

R.— É um pouco assustador, porque é fora de controle. Mas gosto que seja dessa maneira. Mesmo assim, tenho escrito ininterruptamente. Não sei explicar: há um certo controle sobre isso. No final, é um processo racional. Literatura é linguagem: quem determina tudo é a racionalidade da linguagem. Ela que vai e transforma literatura em arte.

P.— Escrever, para o senhor, é como entrar numa guerra ou fazer amor?

R.— Nenhuma das duas. É um trabalho como outro qualquer. Amor e guerra não são trabalhos. Sou um profissional, que é uma função diferente do médico ou do gari.

P.— Quanto tempo durou e como foi sua trajetória no jornalismo?

R.— Fui um repórter medíocre, e tinha consciência disso porque sou tímido e não gostava de perguntar as coisas para os outros. Logo no início, embora repórter medíocre, vi que seria um editor razoável. Essa consciência serviu para que eu me encontrasse no jornalismo. Quem vasculhar algo sobre mim, não vai encontrar absolutamente nada. Não escrevi e, o que é engraçado, nunca fiz nada sobre cultura. Trabalhei com política e economia. Sou um cara extremamente pragmático. No final da faculdade, todos os meus colegas de classe queriam trabalhar com jornalismo cultural. Então, pensei que eu teria menos problema em encontrar emprego na área de política e economia, devido à concorrência menor.

P.— O senhor utiliza alguma técnica do jornalismo na sua prosa?

R.— Jornalismo e literatura são primos, mas acho que nem são de primeiro grau: são primos distantes, de terceiro ou quarto grau. Há um DNA, em um ou outro caso, mas não há nada mais distante da linguagem da literatura do que a linguagem do jornalismo. Acho que não resta nada do jornalismo na literatura. A única coisa que o jornalismo me ensinou foi a disciplina. Escrever é, basicamente, um ato de disciplina. É preciso fazer isso sempre. Diariamente, escrevo das 7h às 11h30. Depois, vou cuidar da parte burocrática e cuidar da casa, cozinhar.

P.— Quando o senhor começou a escrever "Eles Eram Muitos Cavalos" (2001), o senhor já tinha esquemas de estruturas e anotações sobre personagens, consciente sobre como a obra seria conduzida e finalizada, ou o romance foi se transformando durante o processo de escrita?

R.— Quando vou escrever uma obra, não faço anotações, fichamentos, nada. "Eles Eram Muitos Cavalos" era uma necessidade trivial, uma catalogação da minha narrativa daquilo que era possível. Foi com o livro que encontrei uma forma de expressão para o "Inferno Provisório". É um caderno do "Inferno". Na verdade, todos os meus livros derivam do "Eles Eram Muitos Cavalos".

P.— O senhor tem acompanhado a polêmica provocada pela presença da nudez nas artes brasileiras? Qual sua opinião sobre a exposição "Queermuseu" e sobre a performance do artista nu no Mam?

R.— É uma coisa estúpida. No Brasil, todos cismaram, de repente, que são julgadores de arte. São pessoas que nunca abriram um livro, e se acham grandes críticos literários. Nunca foram a um museu, a uma peça de teatro, e se acham capazes de fazer essas críticas. É a mediocridade de alguns brasileiros que se sentem nesse direito. É um pensamento reacionário que está invadindo nosso espaço, e isso não parte apenas da igreja evangélica, vem também da católica, dessa elite burra e reacionária.

P.— A exposição "História da Sexualidade", que estreia hoje em São Paulo, será a primeira exposição, desde que o Masp foi fundado em 1947, a ser permitida apenas para maiores de 18 anos. Menores não poderão entrar acompanhados por pais ou responsáveis. O senhor é a favor da classificação etária para a contemplação de obras artísticas?

R.— É algo hipócrita. No computador e nos canais fechados têm sacanagem: não tem nenhum menino de 16 anos que não viu isso. É um perigo que esses espaços, como o Masp, cedam a essa pressão. Afinal, o museu é público. A elite brasileira é contra aborto, e muitos desses que criticam fazem aborto. A elite brasileira é contra as drogas, mas é uma grande consumidora de drogas. É nojenta, essa hipocrisia.

P.— O senhor se preocupa, na hora da escrita, com esse novo posicionamento da sociedade?

R.— Enquanto cidadão, fico preocupado. Mas, enquanto artista, não tenho nenhuma preocupação com esse tipo de gente. Estou me lixando.

P.— A escritora Nélida Piñon e a então ministra da Cultura, Marta Suplicy, criticaram o seu discurso na Feira de Livro de Frankfurt, em 2013. Entre outros temas, o senhor falou sobre o passado escravagista brasileiro, sobre a violência, a população carcerária e a homofobia. O senhor se arrepende de ter proferido esse polêmico discurso sobre o Brasil?

R.— Se eu soubesse que o País pioraria, eu teria sido ainda mais incisivo. O que eu dizia, na verdade, não era algo polêmico: eram coisas óbvias. Que há machistas, homofóbicos, que o País começou sua história matando um monte de gente. Eu me arrependo, hoje, de não ter sido mais radical.

P.— Em sua segunda vinda a Maringá, o senhor disse que não tinha um aparelho celular. Nesse exato momento, porém, estou falando contigo por meio de um número celular. O senhor já se rendeu ao smartphone e ao selfie?

R.— Tenho um celular há dez meses. Mas não tenho Facebook, Instagram nem WhatssApp. No celular, atendo poucas ligações. Nunca atendo os números que não conheço. Não preciso de um celular. Tive celular durante muitos anos por conta dos jornais. Celular é coisa para pessoas que não conseguem viver sozinhas. Eu não sou esse tipo de gente. Adoro viver sozinho (risos). O celular atrapalha, dispersa, é invasivo. Para mim, não faz nenhuma falta.

P.— Em Maringá, o senhor vai topar posar para selfies com os leitores?

R.— Claro que sim! Isso eu faço, sem problemas. Só não vei ter selfie com o meu celular (risos).

LUIZ RUFFATO
Quando quinta-feira (26), às 19h15
Onde Paço Municipal
Mediação Luigi Ricciardi, escritor e doutorando em Estudos Literários (UEL)
Quanto grátis

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"Fui um repórter medíocre", comenta o premiado escritor Luiz Ruffato