Por que as pessoas ainda vão ao teatro? Fiz e refiz essa pergunta, em silêncio, ao deixar o Teatro Barracão na última sexta-feira. E me peguei rindo, principalmente, porque uma conhecida minha avisou que não iria assistir "O Filho Eterno", da Cia. Atores de Laura, simplesmente porque eu iria estar lá. "Você sempre fala mal das peças que assiste, isso é insuportável", justificou a moça.

Ela estava certa: sou um severo crítico do teatro contemporâneo. Muitas produções que chegam aos palcos maringaenses, paulistanos, cariocas, não passam de montagens rasas e ingenuamente ambiciosas, em que a proposta sempre é inferior à realização.

Há dois erros muito comuns nas produções teatrais contemporâneas. Motivados pela (saudável) necessidade de perturbar - função de toda a grande arte, seja ela a literatura, o cinema, a pintura -, alguns atores e diretores tropeçam no primeiro dos equívocos: metem-se em mirabolantes produções desengonçadas.

Há casos, por exemplo, de espetáculos mesclando humor popular com drama, clowns, ironia nonsense, suspense, tudo num único enredo híbrido de 1h15. Há, ainda, turmas dramatúrgicas que cometem um segundo tipo de erro: fazem o engajamento pelo engajamento, sem qualquer artisticidade, com texto simplista, medíocre, quase amador, erguendo (louváveis) bandeiras. Nesses casos, pouco importa se há um talentoso ator em cena: o espetáculo não se sustenta.

Na sexta, o Barracão tinha um bom público, mas não chegou a lotar. Quem deu as caras por lá viu - sem pagar um tostão - o talentoso Charles Fricks encarnando, sozinho, o romance "O Filho Eterno", do consagrado romancista Cristovão Tezza: um dos raros momentos em que o teatro contemporâneo uniu uma grande história a um grande ator: é uma receita surpreendentemente simples, que pouca gente põe em prática.

Descompassos

Os terrenos do teatro e da literatura se comportam de formas diferentes. O teatro contemporâneo está mais interessado em perturbar pela forma do que pelo conteúdo apresentado. A literatura contemporânea, por sua vez, não está interessada em perturbar pela forma, mas pelo conteúdo – o problema é a qualidade de muitos dos autores vivos, que escrevem sem voz própria, medusados por ícones estrangeiros, o que compromete o conteúdo.

Com o impasse, atores talentosos surgem à deriva em palcos que necessitam, urgentemente, de narrativas bem escritas.

À flor da pele

"O Filho Eterno", lançado em 2007, é uma das obras mais importantes da literatura brasileira do último decênio. É violenta e visceral, a forma como o narrador de Cristovão Tezza aborda a relação de um pai com o filho, portador de Síndrome de Down.

A peça é extremamente fiel, seguindo à risca a cronologia dos fatos tal como surgem na obra. Há frases do livro praticamente pronunciadas na íntegra, embora o filho, desde o início da peça, seja chamado de Felipe. No livro, o filho não tem nome: é assujeitado e levado à condição animalesca. O nome de Felipe é guardado para o final do romance, sinalizando, na escrita, a mudança de comportamento paterno, que passa a aceitar e amar o filho.

Mesmo assim, o texto não perdeu força no palco. E foi comum ouvir, na escuridão do espetáculo, os suspiros e os narizes escorrendo de vários espectadores emocionados.

Bonitinho, mas ordinário

É desafiador assistir a um espetáculo no Teatro Barracão, inaugurado há 29 anos na praça Nadir Cansian. A acústica é assustadoramente ruim e as cadeiras são desconfortáveis: suportar únicos sessenta minutos, ali dentro, não é menos penoso que enfrentar chicotes e pontapés numa via cruscis.

Durante o monólogo "O Filho Eterno", buzinas, freadas, carros e motocicletas disputavam com o único ator em cena a atenção dos espectadores. Único ponto positivo do teatro é que, felizmente, ele não está localizado dentro de algum shopping center – modinha abestalhada que vem danando as capitais.

Louvável

Charles Fricks suou a camisa em Maringá: poucas vezes a cidade viu um ator desempenhar seu papel de forma tão louvável. Num calor infernal, manteve o traje do personagem e usou um blazer marrom sobre uma camisa de manga longa, assumindo um visual semelhante ao do escritor Cristovão Tezza.

Vencedor do Prêmio Shell de melhor ator, Charles Fricks encerrou o espetáculo ensopado, sob a comoção dos maringaenses que, a cada aplauso, respondiam que é preciso ir ao teatro, que é preciso ouvir boa música, que é preciso ler autores talentosos, simplesmente porque a vida não basta.

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Charles Fricks, que encarnou o monólogo "O Fiho Eterno": atuação louvável