"Sou lento e preguiçoso para escrever", revela a O Diário o talentoso escritor Oscar Nakasato. Vencedor da categoria melhor romance nos prêmios Jabuti (2012) e Benvirá (2011), Nakasato lança hoje à noite, nas Livrarias Curitiba do Maringá Park Shopping, "Dois", seu segundo e aguardado romance.

Ambientado em Maringá -cidade onde Nakasato nasceu e graduou-se em Letras -, o romance aborda a rivalidade entre uma dupla de irmãos. "'Dois' é uma ficção, mas traz muitos fatos que dizem respeito à minha história pessoal", adianta o autor.

Na conversa abaixo, Nakasato comenta as semelhanças e diferenças entre seu livro e "Dois Irmãos", de Milton Hatoum, observa a presença do humor em "Dois" e avalia a importância do tom memorialístico em sua escrita: "É na memória que busco o essencial no romance".

P.— O senhor demorou muito para publicar "Dois". Por quê?

R.— Sou privilegiado por ser docente numa universidade pública em Apucarana e ter uma família linda, mas, creia, essa condição me toma muito tempo. São aulas, projetos, reuniões, compras no supermercado, consultas médicas, conversas com gerente de banco. Além disso, sou lento e preguiçoso para escrever. Gosto muito mais de ser leitor.

P.— Como foi o processo de escrita?

R.— Não tenho disciplina para escrever. Às vezes, fico mais de um mês sem produzir uma linha. Não sigo esquemas, não começo com o primeiro capítulo e nem termino com o último. Trabalho no computador ligado à internet, por isso estou sempre pesquisando, seja para ver a grafia correta de uma determinada palavra ou para confirmar a existência de uma rua que eu cito no romance. Mas a internet também me atrapalha, pois o YouTube vive me chamando para ver um vídeo novo.

P.— Quais aproximações e afastamentos podem ser feitos de "Dois" com "Dois Irmãos", do Milton Hatoum – que, aliás, é até mencionado na epígrafe da sua obra.

R.—Como no romance de Hatoum, em "Dois" há irmãos que se antagonizam e uma irmã muito dedicada. As coincidências dos enredos são somente essas, pois as histórias de meus personagens são muito diferentes das trajetórias dos irmãos de Hatoum. Já em "Nihonjin", apontaram na minha narrativa em primeira pessoa com um tom memorialístico um parentesco com o estilo do escritor amazonense. Não foi intencional, nem em "Nihonjin" nem em "Dois", porém, talvez seja aquela influência que o escritor não perceba, o que não pode ser descartado, pois gosto muito de Hatoum.

P.— Em Maringá, chegou a entregar um exemplar de "Nihonjin",em 2011, para Milton Hatoum. Ele chegou a te dar algum feedback depois?

R.— Nunca mais vi o Hatoum. Também não mantivemos contato.

P.— Quão autobiográfico é o enredo de "Dois"?

R.—"Dois" é uma ficção, mas traz muitos fatos que dizem respeito à minha história pessoal. Morei na Rua Osvaldo Cruz, como os protagonistas do romance. Como Zé Eduardo, estudei no Colégio Gastão Vidigal, participei de movimento estudantil, era um rato de biblioteca, gosto de Fernando Pessoa e sou simpatizante do budismo sem ser budista. E como Zé Paulo, sou metódico e um pouco ranzinza. Esses são apenas alguns elementos que aproximam os personagens de "Dois" do autor.

P. - Sem a memória, o que seria da sua literatura?

R.—Nada. É na memória que busco o que é essencial no romance.

P.— Como avalia o humor em "Dois"?

R.—O humor nasceu espontaneamente em "Dois" na figura do Zé Paulo. Não foi intencional. Quando percebi, passei a trabalhar mais essa característica. Não é difícil imprimir humor num personagem com valores da direita. Se fosse ficção, Bolsonaro seria risível.

P.— Em recente entrevista a O Diário, Ademir Demarchi afirmou que a literatura brasileira contemporânea "está mais preocupada em narrar de forma pasteurizada que experimentar, sendo por isso superficial no geral. O escritor (...) pratica a mediania, fica na repescagem de velhos temas, está sempre chafurdando em histórias familiares, em romances e estórias de amor, em narradores que estão tão nus e superficiais, sem aquele tom demoníaco de Machado". Concorda com as observações de Demarchi?

R.—Todas as vezes que leio Demarchi, fico abismado com a sua inteligência e a sua capacidade de lidar com as palavras, mas não concordo com ele. Realmente, não reconheço nenhum Machado de Assis ou Guimarães Rosa entre os contemporâneos, mas não os procuro. Vejo, hoje, excelentes escritores, que desenvolvem temas e estilos diferentes. Talvez a grande riqueza da literatura que se produz atualmente seja a diversidade. Luiz Ruffato, Maria Valéria Rezende, Marco Aurélio Cremasco, Marcos Peres, Conceição Evaristo e Michel Laub, só para citar alguns, são autores que não se confundem e escrevem histórias que gostamos de ler.

P.— Sobre política, como avalia o ex-presidente Lula? Caso ele se candidate à presidência, terá seu voto?

R.—Votei em Lula todas as vezes em que ele foi candidato e não me arrependo. Sem o governo do PT, milhões de pessoas que hoje comem e têm onde morar estariam sem teto e passando fome, milhões de jovens que se graduaram ou frequentam a universidade teriam interrompido os estudos após o Ensino Médio. Mas o PT não soube conduzir a economia do País para que essas conquistas tivessem continuidade. Espero uma grande renovação na política em 2018, mesmo dentro do PT. Por enquanto, Lula não é meu candidato para as próximas eleições.

DOIS
Editora Tordesilhas
Preço do livro R$ 34
Quando quinta (23), às 19h30
Onde Livrarias Curitiba do Maringá Park Shopping

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"Não tenho disciplina para escrever", comenta Oscar Nakasato