Ao desembarcar em São Paulo, recentemente, Adalberto de Oliveira Souza ficou sem reação. Embora conheça muito bem a cidade onde se formou em Letras Português-Francês – na USP, foi aluno de ninguém menos que Antonio Candido –, ele simplesmente não sabia o que fazer. E não era por falta de oportunidades.

Pelo contrário: a Pauliceia Desvairada ostentava tantos filmes alternativos e estrangeiros, produções que nunca chegam – nem chegarão – às telonas das províncias paranaenses, que o escritor e professor aposentado da Universidade Estadual de Maringá (UEM), diante das maravilhas cinematográficas, não sabia o que deveria assistir.

Catatônico, comprou um ingresso para qualquer primeira sessão, que estava prestes a começar, e se livrou da dúvida imobilizadora. "É uma sensação horrível. E há algo parecido na literatura: é impossível ler tudo e todos. Isso pode ser frustrante", comenta Adalberto, empunhando "Enigmas" (Editora Coruja), seu quarto livro de poesia.

A obra é, na verdade, um dois-em-um. A primeira parte, trilíngue, reúne 18 poemas em português, todos traduzidos para o francês e o espanhol, entre versos inéditos e outros já publicados na revista dos Correios da França e na Latitude, uma publicação franco-portuguesa.

Na segunda parte, o livro revela o ótimo poema inédito "Do Útero Materno à Floresta do Mundo" - sem traduções para outros idiomas -, em que cada verso é ilustrado por reproduções de pinturas figurativas e abstratas, colagens e desenhos feitos por Adalberto.

Diante de sua própria obra, Adalberto não quer que nenhum leitor encarne o que ele, há pouco, viveu em São Paulo: nada de ficar perdido, sem saber o que apreciar primeiro. "Esse livro é a melhor porta de entrada para conhecer a minha obra. Ninguém sabe que sou pintor, deixo meus quadros expostos em casa e mostrei para alguns amigos, que gostaram. Em um dia, criei os versos para acompanhar cada um dos meus quadros", explica.

Artista de mão cheia, Adalberto escreve e pinta com voz própria, sem copiar ninguém. O lirismo, o humor, o silêncio e manipulação de cada palavra na página do livro são alguns dos traços do poeta paulista radicado em Maringá.

 

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"Ninguém sabe que sou pintor", revela o poeta Adalberto de Oliveira Souza

"Além da musicalidade", escreve Marisa Corrêa Silva, no prefácio da obra, "existe um minimalismo, uma economia na construção que faz com que vocábulos reverberem de forma provocadora", elogia a professora do departamento de Letras da UEM.

O saboroso diálogo da pintura com a escrita não passa batido à professora: "Em comum com Baudelaire, Rimbaud e outros simbolistas franceses - dos quais é leitor privilegiado -, Souza possui a vocação para a pintura com palavras - para não falarmos da pintura propriamente dita -, a capacidade para romper as fronteiras entre as formas artísticas e um impulso em direção à Modernidade, com suas regras eternamente fraturadas e eternamente recompostas."

 

Estante suspensa

Por enquanto, "Enigmas" pode ser desvendado apenas por amigos do autor que receberam exemplares. O autor está definindo os detalhes dos lançamentos que vai fazer em Maringá, São Paulo e Ribeirão Preto. Em Florianópolis, o lançamento será em 9 de março, em local ainda a ser divulgado.

"Além dos lançamentos, também gostaria de fazer uma exposição dos quadros e do poema 'Do Útero Materno à Floresta do Mundo', mas é preciso ajeitar uma série de detalhes", diz.

ISTO É ADALBERTO DE OLIVEIRA SOUZA

FORA

Fora
a vontade 
de ficar dentro.

Dentro
a vontade 
de ficar fora.

O DESERTOR

O enigma precisa ser decifrado,
antes disso é observado,
atento,
sinto-me,
e recuo.

DECISÃO

Quando sobe na cabeça
algo maior que a raiva,
sobra uma vontade,
a vontade enorme.

Ninguém diz qual.
Ela desaparece 
e depois
volta.
Aí, alguém pensa que sabe 
e diz.

ENIGMAS
Quem: Adalberto de Oliveira Souza.
Editora: Coruja (SP).
Páginas: 158.