O mundo dos comerciantes é um universo à parte. Alguns deles, sacanas, fazem de tudo para enfiar nos clientes todo e qualquer tipo de produto – mesmo quando a qualidade de alguns não está boa. Para outros comerciantes, essa atitude antiética – que, cá entre nós, deveria render prisão, tortura, cadeira elétrica – será sempre rechaçada e rejeitada veementemente. Na pequena e aconchegante frutaria que administra no Mercadão, Alexandre Braga sabe o valor de ser honesto com a clientela.

"Já deixei de vender alguns produtos porque fui sincero e disse que não estavam bons. Foi o caso, por exemplo, de uma mandioca que eu fiz em casa e vi que não estava cozinhando", comenta.

Os clientes que ouviram a sinceridade do vendedor deixaram de lado, naquele momento, a tal mandioca. Mas, surpresos com a sinceridade, seguramente vão voltar para buscar, ali, outras frutas, verduras, legumes, enfim. Talvez voltarão, naquele endereço, para tudo.

A honestidade no comércio foi um dos sábios conselhos que Alexandra Braga ouviu, há muitos anos de seu pai, que durante mais de três décadas vendeu tomates e outros acepipes na Ceasa maringaense. "Ele insistia nisso desde sempre", lembra.

Em 2009, quando abriu Da Fruta ao Doce, o filho levou a sério a dica paterna. Também levou a sério a rotina que o pai levava no box da Ceasa. Deus ajuda quem, cedo, madruga? O mesmo vale para os comerciantes maringaenses. Diariamente, Alexandre toca para a Ceasa às 5h da manhã, a bordo de sua caminhonete Fiorino branca. Sozinho, vai garimpando, sem pressa, as frutas, verduras e legumes que ele mesmo, horas depois, vai oferecer aos seus exigentes clientes.

As três horas, vasculhando produtos de qualidade, são um investimento necessário. Alexandre não faz como os grandes mercados que encostam, de ré, seus caminhões no box da Cease e recebem as caixas fechadas repletas de berinjelas, tomates, alfaces, maracujás, maçãs. Ele sabe que, aos grandes mercados, os produtos são oferecidos a preços mais camaradas, afinal as caixas são despachadas sem que sejam abertas nem que seja feita, por ali, qualquer tipo de seleção do produto.

"Pago um preço mais caro, mas só levo para a minha frutaria aquilo que eu mesmo escolho e que sei que está bom", diz.

Terminado o garimpo, toca direto para o Mercadão, que abre às 8h em ponto. Até mesmo às segundas, quando o Mercadão está fechado para serviços internos, Alexandre faz seu périplo em busca da qualidade e, a portas fechadas, continua servindo alguns clientes fiéis. "Tenho restaurantes que sempre pegam os produtos comigo."

Início e modernização

Desde quando abriu a frutaria no Mercadão, Alexandre nunca fez uma reforma no estabelecimento. "O Mercadão foi ficando mais moderno", observa. E é interessante notar que, diante da modernização dos comércios em volta, a Da Fruta ao Doce acabou com um charme retrô que é peculiar das casas que se dedicam a frutas e verduras. Esse, aliás, é um dos principais desafios para a grande mudança que a frutaria deve encarar no segundo semestre de 2018: passar por uma reforma estrutural sem perder a ternura. "Quero algo assim, olha", comenta o comerciante, mostrando as sete fotografias impressas que ele guarda em sua escrivaninha.

"Nos mercadões da Itália, as frutarias ainda têm os cestinhos de madeira, tá vendo? Do mesmo tipo que eu tenho aqui na minha. É isso que não pode ser alterado com a nossa mudança. Não quero perder a identidade da frutaria", comenta.

Planos na balança
2018 será o ano em que o Da Fruta ao Doce vai investir em produtos orgânicos. A casa, hoje, já serve cenoura, berinjela, chuchu, abobrinha, milho. Mas, segundo o comerciante, ainda não é o suficiente. "Eu quero trazer para cá tudo o que tiver na praça e for orgânico", diz.

É Alexandre quem seleciona os melhores produtos na madrugada da Ceasa e chega ao estacionamento do Mercadão e descarrega as caixas repletas de qualidades. Ele mesmo estará na loja, atendendo aos clientes de manhã, enquanto sua esposa permanece no caixa e outros funcionários reforçam o atendimento.

À tarde, Alexandre assumirá a parte de contabilidade da frutaria e pensará no futuro e nas possibilidades de trazer novidades àquelas gôndolas e, calmamente, responderá ao cliente que o abordar, em dúvida se aquele maracujá, realmente, está doce; se a ameixa está, verdadeiramente, saborosa; e se a melhor hora de comer um determinado mamão papaia é agora ou daqui a dois ou três dias.

"Alguns amigos me dizem: 'isso não é vida, sua rotina é muito corrida'. Mas eu nem ligo. É isso o que gosto de fazer. Não há melhor sensação do que ver os clientes saindo da minha loja levando as frutas e verduras que escolhi com cuidado e dedicação."


DA FRUTA AO DOCE
Onde: Av. Prudente de Morais, 601, Zona 7.
Quando: terça a sexta: 8h às 20h. Sábado: 8h às 18h. Domingo: 8h às 13h.
Tel: 3041-0034.

Divulgação
COMPROMISSO. "Pago um preço mais caro, mas só levo para a minha frutaria aquilo que eu mesmo escolho e que sei que está bom", diz Alexandre Braga, proprietário da frutaria. — JC FRAGOSO
 

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