As páginas da biografia de Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy mais parecem contos inacreditáveis. Dos tantos capítulos da intensa trajetória do Supla, seguem oito mais surpreendentes: 1) Compôs uma música com Cazuza; 2) Abriu os shows dos Ramones no Brasil, além de ter conhecido os integrantes nos Estados Unidos; 3) Cantou com Ian McCulloch, do Echo & the Bunnymen; 4) Tocou em grandes festivais, como Rock in Rio e Lollapalooza; 5) Posou em diversos momentos para Bob Gruen, fotógrafo pessoal de ninguém menos que John Lennon; 6) Nina Hagen, musa do Rock in Rio 85, participou de um de seus clipes; 7) Compôs sobre masturbação e foi censurado; 8) Filho dos políticos Eduardo e Marta Suplicy, nunca escondeu a paixão pelas guitarras distorcidas em seus penteados, roupas de couro e apetrechos punks.

Nesta sexta-feira (19), no MPB Bar, acompanhado por uma banda "invocada", como ele mesmo define, Supla passa a limpo seus versos de paixões e protestos, ironia e bom humor. Por telefone, o cantor relembra sua trajetória, avisa que compôs uma música em homenagem a Donald Trump ("mandando ele se f...") e demonstra interesse em tocar num grande teatro maringaense em meio a um colossal barco pirata.

P.— Algumas pessoas dizem que você, com "Green Hair (Japa Girl)", virou um ícone do "universo trash". Concorda com esta classificação?
R.— Não concordo: não sou ícone trash. Pra mim, "Green Hair" é uma música maravilhosa, de amor. Fiz para uma moça que tinha uma história curiosa: o pai dela era bombeiro no Bronx e a mãe era uma cantora. Eu estava apaixonado por aquela moça, que tinha o cabelo verde. Todos que participaram do clipe da música são pessoas que viviam aquele momento do rock underground, do punk, do metal, em Nova Iorque. Não consigo ver nada de trash nisso. Trash era aquele programa do Marcos Mion.

P.— Você sempre lidou muito bem com o bom humor, diferentemente de vários outros roqueiros brasileiros...
R.— Sempre tive um humor bacana e explorei isso em programas de TV, até para me manter. Sei que fazer humor é difícil, mas ele aparecia, sempre fez parte de mim. "Mão Direita", música que compus aos 18 anos, tem uma letra bem-humorada sobre a masturbação. Quando lancei, a música foi censurada.

P.—Ficou surpreso com a censura?
R.— Claro! Achei uma coisa ridícula. Nunca esperava uma coisa dessas. Masturbação é algo que todo mundo faz. Quer dizer, quase todo mundo. É bom pra relaxar, né?

P.— "O Charada Brasileiro" (2001), álbum lançado após sua participação na "Casa dos Artistas" (SBT), foi seu CD mais bem-sucedido. Ali, deu para enriquecer com o rock?
R.— Olha, eu ganhei muita grana mesmo com "O Charada". Como ele foi vendido em banca de jornal e o preço era acessível, vendi quase um milhão de cópias.

P.— E seu projeto Brothers of Brazil, com seu irmão, mesclando rock com bossa nova, foi tão escutado quanto merecia?
R.— Não posso reclamar absolutamente de nada. Tocamos no Rock in Rio, no Lollapalooza e fizemos uma grande turnê americana. Fomos trilha de novela na Record e até na Globo, naquela "Balacobaco": a novela foi um fiasco, mas a nossa música, "On My Way", foi bem-sucedida. Se eu reclamar, assim, de barriga cheia, seria algo muito mimado. Nosso som não é tipo Anitta, é difícil tocar em rádio. Até mesmo as bandas que fazem rock, como a Pitty, já não conseguem mais estourar. Em parte, isso é causado pelos dos donos das grandes rádios: todos eles são empresários ligados à música sertaneja. Por outro lado, a maioria já não quer mais ouvir rock. Só uma minoria ainda ama o rock, e é para esse público que eu toco. O povo, hoje, só quer saber de caçar Pokémons.

P.— A quantas anda o novo álbum?
R.— Já lancei quatro singles e estou analisando as propostas da Sony e da Universal, mas talvez eu lance de forma independente. Serão treze faixas e se chamará "Diga o que Você Pensa". Aqui é trabalhador, rapaz! Eu trabalho pra c... (risos).

P.— Quantas músicas você compõe por mês?
R.— Esse mês, por incrível que pareça, não compus nenhuma música. Finalmente fechei meu trabalho: estou pensando em como devo trabalhar essas canções. Meu método de composição é curioso: eu vomito, de uma vez, umas cinco músicas. Delas, escolho umas duas. Nesse meu novo álbum, há uma música que fiz até para o Donald Trump, mandando ele se f... (risos). E uma outra, "Anarquia Lifestyle", que representa bem o momento em que estamos vivendo no Brasil: "Não deixe o tempo roubar o seu sonho/Seu espírito não tem dono/Os anos ensinam: ninguém me representa/Não seguiremos normas de alguém que inventa/Anarquia lifestyle/Para você, anarquia, vou viver".

P.— Por falar em política, acha que Dilma Rousseff merecia o impeachment?
R.— Olha, eu não gosto da Dilma. Ela foi uma péssima presidente, não conversou com os políticos, com os empresários e se aliou a pessoas erradas. Não gostei do jeito que ela tratou o meu pai, um dos poucos caras limpos da política brasileira, evitando, a todo custo, um encontro com ele. Isso não se faz. Acho, porém, que a acusação de caixa dois não é válida: todos os políticos se elegeram por meio desse esquema. Armaram para a Dilma, mas agora já foi. Nessa crise, não sei dizer se seria melhor para o País que ela voltasse ao cargo. Mas, olha, que fique uma coisa bem clara: eu não respondo pelos meus pais, tá? Eu amo os dois, mas sou só um filho (risos). Eles respondem por seus próprios atos.

P.— Falávamos, antes, sobre composições. Como foi sua parceria com Cazuza?
R.— Cazuza e eu nos dávamos muito bem. Nós nos encontrávamos nos bastidores do Chacrinha. Quando fizemos "Nem Tudo é Verdade", ele, infelizmente, já estava mal de saúde. Mas essa música eu não vou tocar no show.

P.— Por que não?
R.— Vou tocar mais os hits: "Garota de Berlim", "Green Hair (Japa Girl)", "Humanos" e "O Charada Brasileiro". Será um show para ver bem de perto, com uma banda invocada, formada pela Camila Lorde (teclado), Bruno Luiz (guitarra), Baboom (baixo) e Edgar Avian (bateria). Há um mês, lotei o Auditório Ibirapuera, aqui em São Paulo, com uma produção muito bacana, conseguimos levar um grande barco de pirata para cima do palco, depois veja o vídeo no meu canal no YouTube. Infelizmente, devido ao espaço do MPB Bar, dessa vez não poderemos levar todo o cenário. Você pode me indicar um grande teatro aí em Maringá pra gente voltar, num próximo show, com um barco pirata?

SUPLA
Quando sexta-feira (19), as 23h
Onde Avenida Curitiba, 210
Telefone 3028-4239

 

Divulgação
Supla, que faz show no MPB Bar: "Garota de Berlim" e "Green Hair (Japa Girl)" no roteiro