Num restaurante nova-iorquino, depois de executar as obras do compositor alemão Johann Sebastian Bach no Carnegie Hall, um dos terrenos sagrados da história da música, o pianista João Carlos Martins ouviu um conselho de Salvador Dalí: "Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach. Algum dia, vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita".

Mesmo que o gênio do surrealismo tenha incentivado essa postura, o pianista nunca afirmou essas palavras. Em entrevista por telefone para O Diário, João Carlos Martins explica o porquê recusou o conselho de Dalí e comenta os motivos que o levaram, há exatamente 27 anos, nunca mais falar sobre política.

Tema de "João, o Maestro", estrelado por Alexandre Nero e Rodrigo Pandolfo, a dramática e emocionante vida de João Carlos Martins pode ser contemplada a partir desta quinta (24) no cinema do shopping Catuaí, e, também, nos trechos da entrevista a seguir.

P.— Qual foi sua primeira reação ao terminar de ver "João, o Maestro"?

R.—Eu chorei. Porque revi tudo aquilo que enfrentei na minha vida para manter o meu sonho. Pedi que a produção checasse os jornais da época e assisti a cenas totalmente verdadeiras, como aquela tocando em Berlim, com o sangue escorrendo, em que fiz um dos melhores concertos da minha vida. E também em Londres, quando fiz o último concerto com duas mãos: ali, beijei o piano e me despedi do instrumento. É um filme emocionante: pode levar um lencinho.

P.—Que tipo de música sua família ouvia em casa?

R.—Em casa, ouvíamos Ary Barroso, Noel Rosa e música clássica. Era, basicamente, música de bom gosto. Quando fui crescendo, fui ouvir Tom Jobim, Piazzolla e Beethoven: todos são gênios. Éramos de classe média. Minha mãe era dona de casa e meu pai, representante de uma firma de aromas francesa que corria o Brasil introduzindo aqueles produtos. Meu pai queria ser pianista, mas com 10 anos sofreu um acidente e perdeu um dos dedos da mão. Acho que ele projetou a vontade de ser músico em mim.

P.—O senhor sofreu uma série de problemas e doenças durante a vida. Em algum momento, achou que fosse uma maldição?

R.—Não pensei em maldição. Há dois tipos de obstáculos nessa vida: os intransponíveis, para serem ultrapassados, e os que Deus colocou na nossa frente, em que a gente tem de ter determinação, mas não pode ultrapassar. O segredo da vida é saber distinguir um obstáculo do outro.

P.—O senhor subiu ao palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, com apenas 20 anos. Que efeito esse concerto teve em sua vida?

R.—Foi profundamente importante. Em Nova Iorque, entrei com um único objetivo: fazer com que a música estivesse no coração das pessoas. Muitos anos depois, aos 67, voltei ao Carnegie Hall como regente. Sempre me apresentei com casa cheia, diante de 2.800 corações.

P.—Qual é a função mais árdua: pianista ou maestro?

R.—Como regente, cheguei a perder dois quilos e meio durante um único concerto. E um quilo e meio como pianista. A cada intervalo, eu tinha que trocar a camisa.

P.—O senhor dedicou muito de sua trajetória a Bach, gravando as obras completas. Como o senhor situa o compositor alemão diante de Beethoven e Mozart?

R.—Bach foi a síntese e a profecia de tudo. Ele é a grande catedral. Os outros são as grandes igrejas. Bach foi genial em tudo. Em mais de mil obras, não tem nenhuma fraca.

P.—Muitos de seus CD's estão fora de catálogo. Há planos para relançar algo?

R.—A proposta é que relancem todas as minhas gravações de Bach no próximo ano. Meus discos estão fora de catálogo há uns vinte anos. Há uma gravadora brasileira e duas norte-americanas interessadas. Os americanos querem lançar a partir de maio, quando farei uma turnê internacional pelos EUA, Europa e Ásia.

P.—Como foi exatamente que o senhor conheceu Dalí?

R.—Foi nos anos sessenta, depois de um concerto meu no Carnegie Hall. Dalí me deu um conselho: "Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach. Algum dia, vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita". Com Dalí, fui ao restaurante ao lado do Carnegie Hall, o Russian Tea Room.

P.—Depois desse conselho, o senhor saiu afirmando que era o maior intérprete de Bach?

R.—Não, nunca disse isso. O maior intérprete foi Glenn Gould.

P.—Por quê?

R.—Ele foi o maior gênio da arte interpretativa do século 20. Quando comecei, eu tinha 20 anos; Glenn, 25. A cada álbum que lançávamos, a imprensa se dividia: uns diziam que minha gravação era a melhor; outros, que a de Glenn era superior. Há uma carta em que Glenn elogia minhas gravações. Mas ele foi o maior intérprete.

P.—O senhor tem acompanhado os novos nomes do cenário erudito, como o terno alemão Jonas Kaufmann e a violoncelista argentina Sol Gabetta?

R.—São pessoas geniais, sem dúvida alguma. Eles têm a parte da genialidade. Acho que, hoje, precisamos juntar o perfeccionismo técnico à criatividade dos grandes intérpretes do século 20.

P.—Com os tantos avanços na tecnologia, que há nos estúdios de hoje, não fica complicado defender aquelas teses, muito comuns no cenário erudito, de que, por exemplo, as melhores gravações de Bach, Mozart, enfim, estão num disco dos anos sessenta, setenta?

R.—Eu não acredito nas gravações de estúdio. Não gosto de tecnologia para alterar a música. Tanto é que eu sempre gravei em teatros com 40, 50 pessoas me assistindo. Convidava o público para ter a emoção de tocar em público.

P.—Ano que vem teremos eleição. O senhor já sabe dizer em quem votaria?

R.—Olha, há 27 anos decidi nunca mais falar de política. Com 77, não preciso nem sou obrigado a votar para me decepcionar depois. Aprendi uma coisa: quem nasceu ligado à arte não pode errar mais de uma vez, porque é um crime.

P.—Alguns artistas defendem que toda arte é política. O senhor não concorda?

R.—Não. Arte é arte, política é política. Cada um tem sua missão, eu cumpri a minha. A arte leva a representação de uma nação no exterior...

P.—O senhor, deixe-me ver se compreendi, se recusa a falar de política para não comprometer a imagem do País lá fora?

R.—Sim, tem isso também. Não falo de política mesmo.

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"Bach é a grande catedral. Beethoven e Mozart são as grandes igrejas", diz João Carlos Martins