Jimmy London, vocalista do Matanza, viu a desoladora metáfora da sociedade no filme de ficção científica "Distrito 9", com centenas de alienígenas caindo na África do Sul, onde são confinados e maltratados pelo governo. "Sempre que houver o mais fraco, seja ele um ET, uma mulher, negro ou judeu, alguém vai querer montar nele. Dentro do pior cenário possível, niilista, cínico, o ser humano, realmente, é uma merda. E nós nos incluímos nessa, tá?", comenta a O Diário, por telefone, o líder do Matanza.

Entoando versos sobre porres homéricos, sujeitos psicopatas e mulheres que roubam o caminhão de seus amásios, Jimmy e seu Matanza disparam sua mistura de hardcore, country e elementos do heavy metal nesta sexta-feira (13), no MPB Bar, com a certeza de que, no final, não restará pedra sobre pedra. "No palco, nós exorcizamos os demônios e o publico lava o fígado", comenta o cantor.

Com a turnê do álbum "O Pior Cenário Possível" (2015), o Matanza fará um dos shows mais esperados do ano. Na entrevista abaixo, o roqueiro carioca critica o "patrulhamento moral" que há sobre a nudez nas artes brasileiras, rechaça a acusação de compor letras machistas e defende a bandeira da diversidade: "Não consigo pensar nas pessoas vivendo sem que seja de acordo com suas próprias escolhas".

P.—Já vi uns três ou quatro shows de vocês e é sempre um bom show de rock. O Matanza já chegou a fazer uma apresentação ruim?

R.—Quem faz o show ser bom é a rapaziada. Nosso público é generoso. Eu falo minhas bobagens, uma e outra piada sem graça, e o público se diverte muito. No palco, nós exorcizamos os demônios e o público lava o fígado: há um turbilhão de alívio e descarrego que faz com que o show sempre seja de alto astral.

P.—Musicalmente, como avalia "O Pior Cenário Possível", álbum da banda de 2015?

R.—Queríamos uma coisa que transcendesse, queríamos criar um contexto para amarrar o disco. Nós nos ligamos que, no meio da crise política, estávamos escrevendo pequenos contos de terror e desesperança. Por mais estranho que pareça, quão pior fica o cenário, mais essencial é a necessidade de descarrego. Mais vontade eu tenho de descer a porrada e fazer um bom show.

P.—É o pior dos tempos?

R.—Apesar de ser terrível, ter de lidar com Trump's da vida não é o pior cenário. A humanidade já teve escravidão, holocausto gigantesco, a humanidade é uma mainstream em criar coisas horríveis. O pior cenário surgiu com o ser humano.

P.—No show em Maringá, vocês vão tocar alguma inédita?

R.—Sim, vamos tocar "Na Lama do Dia Seguinte". Essa música compõem, junto com outra nossa música, um curta-metragem do Alex Medeiros que será lançado nesta sexta-feira. Para surpreender o público, resolvemos escrever mais uma canção sobre ressaca e bebida (risos).

P.—Sua família sempre foi muito politizada e intelectual. Que tipo de música cresceu ouvindo?

R.—Minha mãe, Valéria London, é uma design bastante conhecida e meu pai, Jack London, era escritor e economista. Nasci e cresci numa classe média alta, com pais intelectuais, em meio a uma biblioteca de muitos livros e muita oportunidade de ir ao cinema, teatro, ouvir música. Eles eram comunistas dos anos setenta e, em casa, ouvíamos Joan Baez, Beatles e Bob Dylan, que ainda é um dos meus preferidos.

P.—Há uma discussão de gênero muito intensa na sociedade. Como você vem acompanhando esse debate?

R.—Tenho uma criação liberal e um pensamento liberal. Não consigo pensar nas pessoas vivendo sem que seja de acordo com suas próprias escolhas. Acho que cada um lida com a dor e o prazer de ser o que é. Precisamos proteger as pessoas do ódio, não da diversidade.

P.—O Matanza já foi acusado, por algumas internautas, de compor música machista. Você concorda com esse tipo de crítica?

R.—Olha, eu ouço e respeito a opinião das pessoas, mas não concordo. Nossas letras têm mulheres muito poderosas e que saem por cima, que podem mais. Tem mulher que mata o cara e mulher que rouba o caminhão do sujeito. Mas esse é um assunto em que todos precisamos ter muita educação. A palavra é exatamente essa: educação. Temos pouca educação de comportamento hoje em dia. Todos temos que ser mais educados.

P.— Como avalia as recentes acusações de pornografia e pedofilia para algumas performances e exposições artísticas no Brasil?

R.—Não estou totalmente informado dos detalhes dos fatos desses dois casos. O que posso dizer é que fiquei muito surpreso e que há, sim, um patrulhamento moral, e é preciso tomar cuidado com esse patrulhamento. A patrulha moral não se engaja contra o caixa dois, mas prefere se engajar pela cura gay... Há muito tempo, a banda Textículos de Mary cantava músicas obscenas e não deu nenhuma merda. Em várias outras artes há a presença da nudez. Yoko e John Lennon protestaram nus! Essa galera, que tanto reclama da nudez, nasceu ontem? Estavam com a cabeça enterrada?

P.—Se as eleições fossem hoje, você votaria no Bolsonaro?

Votaria em qualquer um para evitar que ele fosse eleito. O Bolsonaro é um completo idiota, um despreparado.

P.— E o Doria?

R.—Também não teria meu voto. Não acredito no papo do "novo político": é uma solução pequena, não é pensamento racional.

MATANZA
Quando sexta (13), às 23h
Onde MPB Bar, Av. Curitiba, 210
Telefone (44) 3028-4239

Divulgação
A banda carioca Matanza, que toca nesta sexta-feira (13) no MPB Bar