Dee Dee roubou o caminhão dos Ramones e vendeu todo o equipamento de sua própria banda para pagar o traficante que lhe fornecia heroína. O resultado? Foi expulso de uma das mais importantes bandas da história do punk rock, abrindo uma vaga para o baixista Christopher Joseph Ward, o CJ Ramone.

Se não fosse o arranjo excêntrico e improvável de Dee Dee, o punk, possivelmente, teria perdido um baixista. "Acho que, talvez, eu teria sido um motorista de caminhão. Eu gosto da estrada", comenta CJ Ramone, em entrevista por e-mail a O Diário.

Aos 52 anos, CJ é o único integrante vivo dos Ramones. Frequentemente, desembarca no País e inclui cidades do interior em suas turnês. Pela segunda vez em Maringá, ele toca no Polo Club Bar no domingo (19), com ingressos a partir de R$ 60 (meia-entrada da pista).

No repertório, clássicos dos Ramones tomam forma ao lado de músicas de seus cinco álbuns solos. "American Beauty", lançado em março deste ano, é o trabalho mais recente. "Será uma noite barulhenta e divertida", promete.

Controvérsia

Nem todos os críticos e músicos aplaudiram, nos Ramones, as provocações estéticas. Formado nos anos setenta, o quarteto erguia a bandeira do "faça você mesmo". Em músicas que raramente chegavam a três minutos, geralmente limitadas a três acordes, a banda insistia em gravações sujas, barulhentas, quase cruas.

Faziam shows rápidos, coisa de uma hora e pouco de duração, versando suas raivas, frustrações e amores. Nenhuma das críticas, porém, acumuladas de 1991 a 1995 - período em que a banda lançou quatro álbuns com CJ – perturbaram o baixista.

"Eu gostaria de convidar quem pensa que o que fazemos é fácil para entrar num palco e tocar por uma hora e quinze minutos. Fizemos discípulos, criamos uma resistência e um estilo que poucos podem fazer", avalia.

Climão

Conviver nos bastidores de uma das bandas mais importantes do punk tinha seu lado terrível. O vocalista Joey e o guitarrista Johnny passaram duas décadas sem trocar uma única palavra, embora dividissem o mesmo palco, participassem de entrevistas coletivas e outros eventos oficiais.

Empunhando seu baixo, CJ tentava enfrentar a maratona de shows da melhor maneira possível, diante de um clima sempre tenso. "Era como estar em uma família onde mãe e pai não se dão bem. Às vezes, não é bom. Mas não era tão ruim quanto as pessoas parecem pensar", recorda.

Para piorar, os dois corações dos Ramones batiam, fortes, em lados opostos. Joey era defensor de causas minoritárias, um liberal, e tinha suas preocupações com o meio ambiente. Johnny, por sua vez, era um conservador, admirava Ronald Reagan e acreditava que o melhor destino para a Amazônia seria pavimentá-la. Diante de dois extremistas punks, CJ encarnava, nos Ramones, o papel de mediador.

"Eu sempre fui um centrista e é assim que eu mostrei a Johnny e Joey. Era uma boa opção para a banda. Concordei e discordei com os dois ao longo dos anos e acho que eles respeitaram isso. Joey e eu concordávamos com a política social e os direitos humanos na maioria das vezes, quando as nossas opiniões não estavam mais próximas das do Johnny. As coisas que eu discordava na maioria das vezes eram questões mais extremas da esquerda ou da direita."

Pêndulo político

CJ Ramone mantém a mesma postura centrista, atento aos equívocos de xiitas da direita e da esquerda, quando tenta justificar como foi possível uma nação civilizada eleger alguém como Donald Trump.

"Pense na política como um pêndulo: com o presidente Obama, nosso país mudou para a esquerda; o presidente Trump é o balanço voltado para a direita", compara.

Com cada um dos presidentes concentrados em se debruçar sobre projetos e ações que os políticos anteriores ignoraram solenemente, o cenário político, segundo o músico, nunca vai melhorar. "Isso torna o Estado muito bipolar. Esse é o perigo em nosso sistema político: os extremos nunca podem ser a norma," diz.

A melhor saída? Nem para um lado, nem para o outro. "Devemos permitir que os centristas conduzam, equilibrando a esquerda e a direita com o entendimento de que é a única maneira de viver de forma um pouco pacífica. Sempre haverá compromisso com cada lado dando e recebendo. Nenhum ideal deve sempre dominar. O mundo já sofreu bastante com o extremismo. É hora de uma revolução centrista ou continuaremos a assistir a nossa história violenta", avisa o politizado CJ, e das linhas do e-mail é quase possível ouvir seus gritos de farra e fúria, tal como ele fazia nos shows dos Ramones, antes de iniciar uma nova música: "One, two, three, four!"

CJ RAMONE
Quando domingo (19), às 18h
Onde Polo Club Bar (Av. Tiradentes, 149 - Zona 1)
Quanto de R$ 60 (pista solidário ou meia-entrada) a R$ 240 (camarote inteira), à venda no site do Aloingressos.com.br

Divulgação
"É hora de uma revolução centrista", avalia CJ Ramone