Que a internet revolucionou a forma como as pessoas escutam música, isso não há dúvidas. Mesmo com o mercado em queda vertiginosa com a venda de discos, o cenário musical, felizmente, não deixou de produzir obras-primas.

Do rock ao erudito, passando pela bossa nova ao country, o ano de 2017 contou com lançamentos espetaculares – alguns deles, gravados e produzidos por brasileiros.

Rompendo o silêncio de seis anos sem canções inéditas, Chico Buarque apresenta nove faixas em "Caravanas", que vão do blues ao samba, com direito a baladas épicas. "Tua Cantiga", "Blues para Bia" e "Caravanas" poderiam entrar em "Construção" (1971), "Meus Caros Amigos" (1976) ou qualquer outro álbum antológico que ele gravou no passado.

Milton Nascimento não lançou álbuns neste ano, mas sua obra foi homenageada, de forma louvável, em dois grandes álbuns. O bandolinista carioca Hamilton de Holanda, com "Casa de Bituca", reviu as melodias de Milton Nascimento a partir da perspectiva da música instrumental, executada com mãos no samba e no jazz. Com um arranjo criativo e soturno, "Vera Cruz" tomou nova personalidade nas mãos de Hamilton de Holanda e de outros quatro instrumentistas. A interpretação de "Travessia", executada apenas ao bandolim e com a voz de Alcione, ganhou uma tristeza acachapante.

Em "Invento", a cantora Zélia Duncan e o violoncelista Jaques Morelenbaum também se debruçaram sobre a obra de Milton Nascimento, compondo uma dobradinha incomum, sem a presença de outros instrumentistas. Ainda que as canções sejam executadas seguindo praticamente à risca as melodias originais, a dupla consegue provar, de uma forma peculiar, como a obra de Milton Nascimento é enriquecida pelo silêncio. E há, a partir dessa interpretação primorosa, o reforço da poesia das letras e da harmonia que Milton Nasicmento construiu ao lado de parceiros como Fernando Brant.

Direto da terrinha, a cantora portuguesa Carminho deu um clima fadista à bossa nova de Tom Jobim. Sem presença de lados B nem mudanças muito bruscas das obras originais, Carminho gravou "Triste", "Falando de Amor", "Sabiá" e "O que Tinha de Ser", mostrando que a obra jobiniana, ao ser entoada com sotaque lusitano, ainda surpreende e, por incrível que pareça, não foi tão explorada como deveria ser.

Quem também prestou uma bonita homenagem foi a cantora norte-americana Joan Osbourne, que lançou "Songs of Bob Dylan", dando um tratamento country aos versos e à melodia do vencedor do Prêmio Nobel. Ainda mais do que em Carminho, até pelas reinterpretações mais audaciosas, o álbum de Joan Osbourne lança nova luz, fresca e revigorante, à obra dylanesca.

Na música erudita, dois lançamentos já são referências obrigatórias para quem gosta de piano: o do pianista brasileiro Nelson Freire ("Bramhs"), executando as obras do gênio alemão do século 19, e o do pianista islandês Víkingur Ólafsson ("Philip Glass: Piano Works"), passando a limpo as peças do gênio norte-americano, um dos grandes nomes da música erudita contemporânea, ao lado de Arvo Part e John Adams.

O tenor alemão Jonas Kaufmann também caprichou em seu "l'Ópera", gravando apenas árias de compositores franceses. No novo álbum, árias bem conhecidas do repertório lírico, compostas por Charles Gounoud (1818-1893), Georges Bizzet (1838-1875) e Massenet (1842-1912), entre outros, surgem nas potentes cordas vocais de Jonas Kaufmann, que, ao lado de Juan Diego Flores, tem um dos timbres mais interessantes do atual cenário erudito.

Ex-Oasis, o cantor Liam Gallagher mostrou que ainda é possível fazer um bom disco de rock, resistindo ao caminho percorrido pelas novas bandas, quase todas medusadas pelas afetações de elementos eletrônicos nas gravações. "Wall of Glass" e "Greedy Soul" soam como se a ex-banda de Gallagher - a última grande banda de rock de todos os tempos - fosse responsável pelo álbum "As You Were".

Os improvisos que Jimmy Greene faz em seu sax em "Flowers, Beautiful Life: Volume 2" renderiam sua colocação em qualquer lista de melhores álbuns, independentemente do ano em que ele fosse lançado. É um deleite ouvir como a influência da batucada e do samba surgem em "Stanky Leg" e como seu fraseado é executado com segurança e identidade própria em "Fun Circuits": um álbum que revela que o jazz, executado por talentos como Jimmy Greene, Kamasi Washington e Snarky Puppy, está mais vivo do que supõe a vã filosofia.

DISCAÇOS

 

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''Caravanas'' (Chico Buarque)
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Casa de Bituca (Hamilton de Holanda)
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''Brahms'' (Nelson Freire)
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''Songs of Bob Dylan'' (Joan Osborne)
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''I'Ópera'' (Jonas Kaufmann)
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''Carminho Canta Tom Jobim'' (Carminho)
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''As You Were'' (Liam Gallagher)
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''Flowers, Beatiful Life: Vol. 2'' (Jimmy Greene)
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''Philip Glass: Piano Woks'' (Víkingur Ólafsson)

 

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